Marli Toledo

marly_cdd_03_tratNascida e criada na Cidade de Deus, Marli Toledo sempre quis viver no mundo da moda, mas numa área diferente da maioria das meninas da sua idade. O negócio dela era criar roupas e desenhar tudo o que dava na telha. “Eu sempre quis ser estilista. O que eu gosto de fazer é inventar moda”, diz.

Há um ano, Marli foi apresentada ao fotógrafo Tony Barros, do projeto Lente dos Sonhos, por amigos em comum. Os dois tiveram a idéia de montar uma confecção com a marca da Cidade de Deus: Marli desenharia as roupas, que seriam produzidas por costureiras da comunidade e vestidas pelas modelos do Lente dos Sonhos. “Eu e Tony chegamos a fazer um curso de empreendedorismo, mas não conseguimos financiamento para montar a confecção. Por enquanto o projeto está parado”, lamenta.

Neste meio tempo, Tony chamou Marli para um seção de fotos para o catálogo do Lente dos Sonhos. Foi seu primeiro trabalho como modelo fotográfico. “Eu sou modelo de fotos, não tenho experiência para desfilar em passarela”, conta.

Para Marli, que tem como outra paixão a dança, o negócio é mesmo a passarela do samba. Em 2001, ela começou a carreira como passista e hoje é Princesa da Bateria da Escola de Samba de Manguinhos.

Nos planos para o futuro, terminar o ensino médio e entrar para a faculdade de estilismo. “Tenho um filho lindo, o João Carlos, de 3 anos, e quero dar um futuro legal para ele. Aliás, ele adora tirar fotos, vai acabar sendo modelo”, brinca.

Idade: 20 anos
Cabelos: pretos
Olhos: pretos
Altura: 1,68m
Peso: 63kg
Cintura: 73cm
Quadril: 105cm

Chuva de flores

ensaio_chuva_cdd_03aDias de chuva na Cidade de Deus serviram de inspiração para o fotógrafo Tony Barros registrar as novas modelos do projeto Lente dos Sonhos.

Fotos Tony Barros

Tony Barros atua há muitos anos no campo social. Foi agente comunitário da Associação de Moradores da Cidade de Deus e educador em organizações da sociedade civil e na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social do Rio. Um curso de fotografia no SENAC abriu nova perspectiva. Hoje, desenvolve o projeto Lente dos Sonhos na Cidade de Deus, com o objetivo de profissionalizar modelos e fotógrafos da comunidade. No Portal Viva Favela, Tony alia a experiência social ao seu talento como fotógrafo.

Direito ainda restrito

A liberdade é um dos princípios básicos dos direitos humanos, presente na Declaração Universal dos Direitos Humanos e em instrumentos jurídicos internacionais elaborados nas últimas décadas. O direito das mulheres de decidirem sobre sua fecundidade é um princípio expresso nos documentos de diversas conferências internacionais promovidas pelas Nações Unidas.

Em 1994, na Conferência Internacional de População e Desenvolvimento, realizada no Cairo, foi reconhecido pela primeira vez, em documento endossado por mais de cem países, que o aborto inseguro é um grave problema de saúde pública.

Em 1995, o documento assinado na Conferência Mundial sobre a Mulher, em Pequim, recomendou aos governos que reformulassem as leis que prevêem medidas punitivas contra as mulheres que tenham sido submetidas a abortos ilegais.

O direito de decidir, de forma voluntária e livre, sobre a maternidade – o direito de ter ou não ter filhos, inclusive o direito de interromper a gravidez – baseia-se, portanto, em princípios humanitários já reconhecidos. Mas na prática nada é assim.

No Brasil, atualmente, funcionam aproximadamente 30 serviços de atendimento a mulheres vítimas de violência sexual, que possibilitam acesso ao aborto, nos casos em que o estupro resultou em gravidez indesejada. Existem ainda outros serviços que prestam atendimento a vítimas de violência sexual, mas que não dão acesso à interrupção da gravidez e, portanto, não estão incluídos nessa listagem.

A implantação e ampliação desses serviços, iniciados no Município de São Paulo, em 1989, tem sido motivo de intensa luta política das mulheres e de profissionais de saúde. Isso contribui para que, nesse contexto, também se inclua a questão do tratamento humanizado das mulheres em processo de abortamento e seu adequado acolhimento nos serviços de saúde, esteja ela tendo um aborto espontâneo ou provocado.

Algumas outras mudanças têm representado papel significativo para as mulheres brasileiras no âmbito de seus direitos. Hoje, já se pode contar com uma Comissão de Interrupção da Gestação Prevista por Lei, na Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia – Febrasgo, e com o Fórum Interprofissional sobre Atendimento ao Aborto Previsto por Lei. O reconhecimento desse direito – assegurado no Código Penal há mais de 60 anos – também se expressa na Norma Técnica sobre a Prevenção e Tratamento dos Agravos Resultantes da Violência Sexual contra Mulheres e Adolescentes, formulada pelo Ministério da Saúde, em 1998.

Essas medidas e serviços influenciam e são influenciados por mudanças que estão ocorrendo na sociedade brasileira em relação à situação ocupada pelas mulheres, como fruto de idéias mais igualitárias e justas de maternidade e de direitos. Exija os seus direitos, mulher!

* Artigo produzido pela Rede Feminista de Saúde, criada há 12 anos, que desenvolve trabalhos políticos e de pesquisa nas áreas da saúde da mulher e direitos sexuais e reprodutivos. A instituição reúne 113 entidades – entre grupos de mulheres, organizações não-governamentais, núcleos de pesquisa, organizações sindicais/profissionais e conselhos de direitos da mulher.

Nada fraternal

A estatística Aparecida*, 27 anos, deu queixa na Delegacia da Mulher do Centro do Rio contra o meio-irmão Marcos, 35, vendedor. Após muitos desentendimentos familiares, ele ameaçou espancar a irmã se ela não lhe entregasse os documentos de uma empresa aberta em sociedade com a namorada dele. Aparecida diz que Marcos é completamente desequilibrado, que quando não é atendido no que quer, transforma a vida das pessoas num pesadelo. Ao denunciá-lo, a estatística sentiu-se mais protegida, já que ele saberia que agora está “fichado”.

“O Marcos deixou um recado no meu celular dizendo que se eu não deixasse os documentos na portaria ele iria me encher de porrada. Eu deixei gravado e agora tenho uma prova contra ele. O Marcos é uma pessoa violenta, eu sei que ele batia na ex-mulher e não quero correr o risco, de jeito nenhum. Da próxima vez que ele me ameaçar – e ele fala sério – vou poder dizer que ele já está fichado aqui e que qualquer coisa que ele fizer vai ter a polícia atrás dele.

O problema é que abri uma empresa em sociedade com a namorada dele, a Márcia*, porque ele pediu. Mas, depois de uma porção de golpes que ele me deu, de contas que deixou de pagar, resolvi desfazer a sociedade, porque sou honesta e não vou arcar com as irresponsabilidades dele. Só que fui eu que fiz todo o processo, dei entrada na papelada e acompanhei tudo, porque se deixar na mão dele nada acontece. O Marcos perde prazos, esquece de comparecer aos lugares e eu quero acabar logo com isso. O que eu mais quero é me livrar do Marcos de uma vez por todas e nunca mais ter que olhar na cara dele.

O meu irmão é uma pessoa complicada, cheia de problemas. Na minha família ninguém fala mais com ele, nem a minha irmã e nem a nossa mãe. Eu era a única que ainda mantinha contato. Teve até uma época, quando ele se separou da primeira mulher, que ele pediu para ficar lá em casa e eu deixei, apesar de saber que ele não é confiável. Mas também não tinha moleza para ele: eu acordava às sete da manhã e saía de casa às oito para trabalhar. Ele saía junto comigo para procurar emprego, e só voltava para casa quando eu voltava. O Marcos é capaz de passar por cima de qualquer pessoa, é interesseiro, não tem responsabilidade nenhuma com nada na vida e, apesar de ser meu irmão, eu não me sentia à vontade de deixá-lo sozinho dentro da minha casa. Eu moro no Engenho Novo (Zona Norte do Rio), ele em Duque de Caxias (Baixada Fluminense).

O Marcos tem vários traumas de infância, porque é filho do primeiro casamento da minha mãe. O pai do Marcos sumiu. Quando os meus pais se casaram, eu acho que ele sentiu muito e se rebelou. Ele foi ficando cada vez mais arisco, agressivo e agitado, e as coisas em casa ficaram insuportáveis. Ele não estudava, não trabalhava, não fazia nada e estava sempre brigando. Quando o Marcos fez 18 anos, meu pai colocou-o para fora de casa. Até hoje ele culpa a minha mãe por isso. Meu pai achava que ele tinha que dar valor às coisas que tinha, que era hora de batalhar, construir alguma coisa. Como em casa ele ficava acomodado, na rua seria obrigado a se virar.

A minha mãe sofreu à beça. Como qualquer mãe, ela protegia ele, lavava a roupa dele, fazia comida para ele, dava dinheiro, às vezes até escondido do meu pai. Mas ele foi piorando cada vez mais, e hoje é uma pessoa completamente desequilibrada. Se você não faz algo que ele quer que você faça, ele simplesmente briga ferozmente com você, te agride e transforma a sua vida num pesadelo. Por isso decidi denunciá-lo: para me proteger. Quero que ele saiba que tem alguém olhando por mim e que se ele levantar a mão na minha direção isso não ficará impune, porque o nome dele já está fichado.

A minha firma com a Márcia era de comércio e representações. Como não quero mais a sociedade, dei entrada num processo na Junta Comercial. Eles me pediram uma série de documentos e me deram um prazo de 30 dias para cumprir as exigências. Quando eu disse que realmente ia sair da sociedade, ele resolveu entrar de sócio no meu lugar. E aí resolveu pegar o processo de mim porque diz que quer dar prosseguimento ele mesmo, mas eu não acredito e não vou entregar nada para ele. Aí o Marcos se vê no direito de ficar me ameaçando, dizendo que vai me espancar. Falou com o meu marido e disse que, se o meu marido gostasse de mim, era para ele me convencer a entregar os papéis, se não quisesse me ver toda arrebentada. O Marcos ainda teve coragem de me dizer que, além de me bater, ia me denunciar por roubo e eu seria presa como ladra. Ele não pode fazer isso, não pode ficar infernizando a minha vida.

Não entrego nada para ele porque estou há seis meses lutando para desfazer essa sociedade, que foi um erro que cometi na minha vida, e ele estava sempre enrolando, dificultando as coisas para mim. A gente já teve várias discussões, ele já me agrediu várias vezes, mas eu nunca falei nada. Agora vou até o fim, ele é maluco.

Ele é meu irmão só por ser mesmo. Essas coisas a gente não escolhe.”

*Para garantir o anonimato da denunciante, os nomes de todos os personagens deste caso são fictícios.

Se você se encontra em uma situação de violência, estes são os locais onde pode pedir ajuda no Estado do Rio de Janeiro:

Delegacias de Mulheres

DEAM Legal Centro
Rua Visconde do Rio Branco, 12
Tels.: 3399-3370/ 3371/ 3372/ 3374/ 3376.

DEAM Legal Belford Roxo
Av. Retiro da Imprensa, 800
Tels.: 3399-3530/ 3980/ 3982.

DEAM Caxias
Rua Tenente José Dias, 344, Centro
Tels.: 3399-3710/ 3711/ 2671-7757.

DEAM Nova Iguaçu
Rua Joaquim Sepa, 180, Marco 2
Tel.: 3399-3720/ 3718/ 2667-4121.

DEAM São Gonçalo
Av. Dezoito do Forte, 578, Mutuá
Tels.: 3399-3730/ 3733.

Solidária é a vovozinha

voto_caridade_01Oficialmente, ela tem dois filhos, três netos e dois bisnetos. Na prática, Vanda de Oliveira Miranda, 79 anos, é avó e bisavó de incontáveis crianças, adolescentes e jovens. Afinal, há mais de 23 anos, ela decidiu distribuir enxovais de bebê para mulheres pobres. “Eu faço isso porque gosto de ajudar os outros. E acho que é uma qualidade que falta na maioria das pessoas hoje em dia: solidariedade”, simplifica.

A fragilidade de Vanda é apenas visual: sentada na cadeira de balanço da sala de seu apartamento em Copacabana (Zona Sul do Rio), ela tricota mantas, casaquinhos e sapatos de bebê. Além das aparências, Vanda é uma mulher lúcida, de personalidade forte e extremamente consciente. A segurança é testada já no primeiro contato para a entrega do enxoval. O caminho até a doação começa quando ela vê uma mulher grávida na rua.

Julgando a situação financeira pelo jeito de vestir mais modesto das moças, Vanda vai direto e reto ao assunto: aproxima-se e pergunta se a futura mamãe gostaria de receber um enxoval completo, de graça. “Algumas moças aceitam de imediato. Já outras me olham desconfiadas e começam a fazer perguntas. Tem umas que acham que eu fiz alguma promessa”, conta.

Vanda evita maior envolvimento pessoal nesses contatos. Por questão de segurança, sempre marca um horário em frente a uma igreja para dar o enxoval e nunca informa o próprio telefone. “Por isso nunca encontro as mães depois que dou o enxoval. Acho melhor assim, se não eu me apego muito às moças e aos bebês, e infelizmente não tenho como adotar o mundo inteiro”, explica.

Crises de abstinência

Parte do enxoval ela mesma tricota
Parte do enxoval ela mesma tricota

A mania de perguntar para toda mulher aparentemente pobre e com uma barriguinha proeminente sobre gravidez e enxoval já fez Vanda passar por situações embaraçosas. “Uma vez cheguei toda sorridente para uma moça e perguntei quando chegava o neném dela. Eu já estava toda animada para falar sobre o enxoval. Foi aí que ela me deu um fora daqueles, foi bem ríspida comigo. Também pudera: ela não estava grávida coisa nenhuma, estava era gordinha mesmo. Foi horrível, fiquei com uma vergonha…”, lembra.

Além do enxoval – composto por 4 jogos de camisa de pagão, 3 cueiros, 2 toalhas com capuz, 12 fraldas de pano, 1 mamadeira pequena, 3 alfinetes de fralda, 1 saboneteira com sabonete, 4 sapatos de tricô e 1 casaco de flanela – a beneficiada também tem direito a uma boa conversa com a experiente avó. “Geralmente converso sobre violência, relação mãe e bebê e os cuidados necessários com uma criança. Muitas delas são totalmente despreparadas para cuidar de um bebê e eu tento passar as noções básicas”, explica.

Dar enxovais já faz parte da sua rotina. Quando não tem para quem fazer a doação, ela tem “crises de abstinência”. “Virou um hábito, e eu me sinto mal quando não encontro grávidas na rua”, conta. Ela lembra que há alguns anos ia sempre para Resende, no sudeste do estado do Rio, e lá não encontrava nenhuma mulher para dar enxoval. “Comecei a procurar em todos os cantos e só relaxei quando encontrei uma caixa de supermercado que estava esperando um neném”, diverte-se.

O mais incrível dessa história toda é que a fama de Vanda ultrapassou o estado do Rio. Os enxovais doados por ela já ajudaram mães no Espírito Santo e, acredite se quiser, chegaram até o Pará. “Uma conta para a outra, e aí de boca em boca eu fiquei sabendo de pessoas necessitadas em outros estados. Elas pediram ajuda e eu não pensei duas vezes”. A encomenda foi enviada pelos parentes das futuras mamães, que moravam no Rio.

Enxoval estimula mãe

Aparecida desistiu do aborto
Aparecida desistiu do aborto

A empregada doméstica Aparecida da Conceição, 46 anos, moradora de Heliópolis, em Nova Iguaçu (Baixada Fluminense), já tinha sete filhos quando engravidou mais uma vez. Com uma situação financeira extremamente difícil, ela decidiu que iria abortar o bebê. Sem dinheiro e sem ter de onde tirar o montante para poder pagar a operação numa clínica clandestina, Aparecida pediu um empréstimo à Maria Pia, sua patroa na época.

Assustada com a idéia, Maria ligou para a amiga Vanda e contou-lhe a situação. Vanda não quis nem saber e entrou de sola para demovê-la da idéia. “Foi simples, eu perguntava para ela assim: ‘Você mataria um dos filhos que tem? Pois é. Se abortar, é isso que você estará fazendo’”, conta ela, religiosa.

Mas Aparecida continuava firme em sua decisão. Vanda resolveu apelar para o sentimentalismo materno e mostrou para Aparecida o enxoval que tinha preparado para o bebê. A empregada bambeou, mas não aceitou.

Daniel: paixão de Aparecida
Daniel: paixão de Aparecida

Vanda não desistiu: marcou outro encontro com Aparecida e martelou tanto a cabeça da moça que a empregada desistiu de interromper a gravidez e aceitou o enxoval. Hoje, Aparecida tem verdadeira paixão pelo oitavo filho, Daniel da Conceição Mattos, de 3 anos. “Foi muito triste, ainda bem que decidi não tirar. Eu amo demais o meu filho. Mas estava numa situação difícil, não tinha quase trabalho. Foi a Dona Vanda que levantou o meu astral e graças a Deus hoje eu tenho o Daniel comigo”, diz Aparecida, arrulhando com o filho no colo.

Atualmente, ela trabalha como faxineira na casa de várias pessoas da família de Vanda. “Eu tinha que ajudar a Aparecida a pagar suas contas também. Nesse caso só o enxoval não adiantava”, analisa Vanda.

Vida dedicada a mães pobres

O hábito de entregar enxovais a grávidas pobres tem uma explicação na vida de Vanda. Depois de toda uma vida como dona-de-casa, com os filhos criados e viúva, ela resolveu se dedicar totalmente à caridade – por um desejo pessoal – e preencher a vida com algo construtivo. Através de amigas da Igreja Católica ficou sabendo da Casa de Amparo Maternal em Benfica, Zona Norte do Rio. Durante 10 anos, de 1992 a 2002, Vanda dedicou todo o seu tempo à instituição, que tem como objetivo ajudar mães solteiras e pobres. Nesse período, ela se mudou de Copacabana e foi morar no Amparo. Lá ocupou a função de Diretora Executiva. “A minha família ficou maluca comigo. Eles achavam que era muito perigoso. Mas ninguém conseguiu me tirar de lá”, orgulha-se.

Vanda procura por grávidas na rua
Vanda procura por grávidas na rua

Cerca de 20 mulheres freqüentavam o Amparo Maternal. Lá as mães tinham aulas de higiene e cuidados com o bebê, além de receber uma cesta básica mensal e almoço diário. “Eu era um pouco psicóloga, dona-de-casa e mãe. Costumava conversar muito com as meninas. Elas são muito carentes, engravidam jovens e sem experiência de vida”, comenta.

Quando Vanda perdeu a visão de um olho por problemas de saúde, decidiu que deveria voltar para sua casa em Copacabana. Sem uma de suas mais empenhadas militantes, e passando por sérias dificuldades financeiras, a instituição beneficente acabou fechando as portas. “Fiquei muito triste, porque eles não colocaram ninguém no meu lugar, não tinham condições. O Amparo acabou fechando, e isso me doeu. Hoje tento dar continuidade ao trabalho que eu fazia lá”, lamenta.

Sob olhares curiosos de Daniel e carinhosos de Aparecida, Vanda se embala na cadeira de balanço tricotando uma manta cor-de-rosa. “Não sei para quem estou fazendo isso, não tenho visto nenhuma mulher grávida na rua ultimamente. Mas não tem problema: a gente sempre encontra alguém precisando de ajuda”, sorri ela.

Apostando na impunidade

A rececpionista Elizete*, 26 anos, deu queixa na Delegacia da Mulher do Centro do Rio de Janeiro contra o companheiro Jorge*, 37, instalador autônomo de antenas, com quem vive há 7 anos. Além de já ter agredido a companheira por ser muito ciumento, Jorge mantém uma amante que é prostituta e exige que Elizete se mude do Rio de Janeiro com a filha do casal, Marina*, que vai completar três anos.

“O Jorge sempre foi ciumento, eu não podia olhar para o lado que ele dava um ataque, mas nunca tinha levantado a mão para a mim. Ele tem o segundo grau (atual ensino médio) completo, é uma pessoa gabaritada. Mas ficou desempregado e nunca gostou muito de trabalhar, então vive de fazer bicos.

Até que, há três anos, estávamos em casa quando começamos a discutir por causa de uma blusa com decote que eu tenho. Estava vestida com ela e ele não queria que eu usasse a blusa. Não tinha nada demais, era só um decote, mas ele engrossou e começamos a discutir. Foi aí que, de repente, ele me bateu. Me deu um soco no rosto que pegou no meu olho. Foi tão forte que eu fiquei com o rosto inchado e meu olho ficou com sangue por vários dias. E olha que ele é bem magrinho, não sei de onde tira tanta força.

Na época não tive coragem de denunciá-lo. Ele jurou que aquilo nunca mais aconteceria, mas acabou que nós nos separamos. Eu vivia com medo das reações dele, e nós estávamos sempre discutindo. E, vou te dizer, eu não faço nada, não olho para o lado, nunca dei motivo para ele desconfiar de mim.

Quatro meses depois, ele voltou a me procurar. Eu tinha alugado um cômodo numa rua ali no Centro, perto da Lapa. Ele disse que eu era a mulher da vida dele, que me amava e que não podia viver sem mim. Jurou de pés juntos que não faria isso de novo e me ganhou quando disse que iria procurar um psicólogo para se tratar. Ele me fez promessas de que nossa vida ia melhorar, até que íamos nos mudar para um lugar melhor. Eu acreditei e ele foi morar comigo no quartinho.

Estávamos juntos há 5 meses quando eu engravidei. Nasceu uma menina linda, a Marina, que vai fazer três anos mês que vem. Durante toda a minha gravidez o Jorge foi maravilhoso. Era um super companheiro, a gente não brigava mais. Estávamos muito felizes. Mas foi só a neném nascer para ele mudar completamente. Acho que, quando recobrei meu corpo normal, ele voltou a sentir ciúmes.

Quando a Marina tinha um ano e meio ele estava no auge da agressividade e do nervosismo. Minha vida voltou a ser um inferno: as brigas eram diárias e ele sempre tentava me bater. Mas eu não deixava, sempre me defendia e conseguia segurar a situação até que ele se acalmasse.

Jorge tem o hábito de escrever tudo o que sente e acontece na vida dele num diário. E foi através dessas anotações que eu descobri que ele estava me traindo com uma prostituta. Uma profissional mesmo, que faz sexo por dinheiro. Quando fui tirar satisfações, ele não só admitiu o caso como disse que estava apaixonado por ela e que só não me abandonava e casava com a prostituta porque ainda tinha ‘princípios’. Ou seja: na cabeça dele ele pode bater na mulher e ter a puta como amante. Mas ter a puta como esposa, isso não pode não.

Eu gostava muito dele, eu amava o Jorge. Mas agora só quero me separar. Agora me deu um prazo de quatro dias para sair de casa com tudo o que é meu, ameaçando me espancar. Ele diz que eu não posso morar no Rio de Janeiro, quer que eu saia da cidade. E diz que se eu não fizer o que ele manda vai me perseguir o resto da vida e não vai me dar sossego. Agora, para onde eu vou com a minha filha? Não conheço ninguém fora daqui, sem trabalho, sem nada?

A gente teve uma briga por causa disso. Teve muita agressão e eu cheguei no trabalho toda machucada, com muitas manchas roxas, arranhões e dor no corpo. Ele ligou para o meu trabalho e me disse que os colegas dele do serviço seguraram ele por horas e que foi isso que evitou que ele me matasse, porque já estava decidido. Ele falou, com todas as letras: ‘ Passei a noite trancado para não ir em casa e te matar’. E me disse também que pode matar qualquer pessoa que não vai preso porque toma remédios. Eu não sei se acredito, tenho medo. Esse negócio dele tomar calmante começou agora, porque é muito nervoso. Mas o Jorge não é nem nunca foi maluco”.

*Para garantir o anonimato da denunciante, os nomes de todos os personagens deste caso são fictícios.

Se você se encontra em uma situação de violência, estes são os locais onde pode pedir ajuda no Estado do Rio de Janeiro:

Delegacias de Mulheres

DEAM Legal Centro
Rua Visconde do Rio Branco, 12
Tels.: 3399-3370/ 3371/ 3372/ 3374/ 3376.

DEAM Legal Belford Roxo
Av. Retiro da Imprensa, 800
Tels.: 3399-3530/ 3980/ 3982.

DEAM Caxias
Rua Tenente José Dias, 344, Centro
Tels.: 3399-3710/ 3711/ 2671-7757.

DEAM Nova Iguaçu
Rua Joaquim Sepa, 180, Marco 2
Tel.: 3399-3720/ 3718/ 2667-4121.

DEAM São Gonçalo
Av. Dezoito do Forte, 578, Mutuá
Tels.: 3399-3730/ 3733.

Beleza de porta em porta

revendedora_beleza_01_bpRoupas, lingeries, bijuterias, perfumes, utensílios para casa, cosméticos e objetos variados. No morro do Tuiuti, Zona Norte do Rio, tudo isso pode ser comprado em casa. Ali, a comodidade da compra por catálogo faz o maior sucesso: quem mora no morro só precisa olhar a revista com os produtos das revendedoras que vão de porta em porta e fazer o seu pedido. Dinheiro mesmo, só na hora da entrega.
“Gosto de comprar assim. A revendedora vem aqui, faço o pedido e não preciso me preocupar com nada”, diz a recepcionista Regina de Andrade, de 26 anos. É assim que ela compra todos os cosméticos que usa, da Avon. Seus pedidos, porém, não se limitam à maquiagem. “Sempre tem alguma novidade, alguma coisa bonita; tenho que me controlar senão peço a revista toda. No fim, acabo comprando coisas que nem vou usar. É só empolgação”, confessa.

Regina só resiste ao impulso de comprar roupas por catálogo. “Podem ficar grandes ou pequenas demais, e o tecido pode não ser bom ou ter algum defeito. Roupas eu só compro em loja mesmo”, ensina. Em compensação, o que não é roupa e ela vê no catálogo, acaba pedindo.

Com a copeira Marlene Santana, de 40 anos, é quase a mesma coisa. O fato de ser revendedora não a deixa imune à sedução dos produtos: ela também é uma compradora compulsiva. Marlene trabalha apenas para a Avon – mas isso é o suficiente para que ela e a filha Juliana, de 15 anos, façam um estrago no orçamento. “Eu e ela somos minhas melhores clientes”, brinca. Marlene começou revendendo roupas, há 13 anos. Depois, passou para a venda de produtos de catálogo: De Millus, Quatro Estações, Abelha Rainha.

Rombo no orçamento

Hoje, Marlene enfrenta um sério problema de caixa: é comum as contas do mês não fecharem. Também pudera: o valor de suas compras sempre supera o das vendas. Curiosamente, é esse o motivo que pelo qual ela não pára o trabalho. “Se parar, vou ter que comprar de alguém. Assim, pelo menos compro com desconto”, explica Marlene.

O marido, por motivos óbvios, desaprova sua atividade e já fez de tudo para que ela pare. Com razão: quando não é ela que extrapola nas compras, é problema com alguma cliente. Até produto barato demais pode ser motivo de inadimplência. Aconteceu há tempos, quando uma garota das vizinhança comprou uma pulseira de R$ 1. Diante da cobrança, a cliente reclamou. Como Marlene tinha coragem de lhe cobrar R$ 1? Mas Marlene insistiu, e ela acabou pagando.

A copeira também já entrou pelo cano por emprestar seu nome para as compras de uma conhecida. Nos dois primeiros meses, tudo deu certo: as vendas aumentaram e os pagamentos foram feitos em dia. No terceiro mês, porém, a conhecida comprou R$ 300, mas quando chegou o dia do pagamento disse apenas que não tinha o dinheiro. Resultado: depois de certo estresse, acabou pagando metade do débito.

Marlene já passou até por um calote involuntário. Teve um mês em que justo quem tinha feito o pedido de maior valor – algo em torno de R$ 170 – foi assassinado antes de pagar o que devia. Para evitar ficar com nome sujo, Marlene foi obrigada a pegar um empréstimo para honrar o débito. Tudo para que o marido não ficasse sabendo. Levou quase um ano para pagar.

“Não tive outro jeito. Meu marido, que era contra tudo aquilo, nunca me daria o dinheiro; e na época eu não trabalhava. A solução foi essa”, lembra. Ela agora jura que aprendeu a lição: não faz mais pedido para ninguém em seu nome.

Tudo pela independência

É justamente por não querer depender do dinheiro do marido que a dona-de-casa Helena Marques de Oliveira, de 47 anos, gosta de revender produtos de catálogos. Como depois da segunda gravidez ficou difícil conciliar trabalho e os cuidados com duas crianças, Helena tratou de ganhar seu dinheiro de casa mesmo. “Depois que você se acostuma a trabalhar não consegue mais ficar dependendo de alguém. Com as vendas, consigo pagar minhas contas pessoais e ainda comprar alguma coisa para os meus filhos sem pedir ao meu marido. Me dá uma certa independência”, anima-se.

Helena vende bijuterias da Luzon; produtos variados da Hiroshima; e cosméticos da Avon. Ela não revela quanto costuma ganhar, mas admite que é o suficiente para fazer “tudo o que quer”. Quem adora o arsenal de catálogos à disposição é a filha, Juliana. Quase todo mês ela encomenda alguma coisa, principalmente bijuteria. E Juliana paga as compras direitinho, com a mesada que recebe do pai.

Maria: estratégias para aumentar vendas
Maria: estratégias para aumentar vendas

Motivo mais do que suficiente para que Helena se orgulhe em dizer: “Crio meus filhos para terem responsabilidade. É por isso que não pago o que eles compram. Só repasso a eles o desconto que recebo em cada mercadoria”.

Além do dinheiro, outro motivo para que Helena continue como revendedora são os brindes. Cada pedido encomendado é um mimo que recebe. Ela já ganhou utensílios de cozinha, panos de prato, bijuterias. Essas já têm destino certo: a filha. Quando recebe qualquer outra coisa, Helena decide se fica ou repassa a alguma cliente fiel. “É ótimo. Parece que a empresa está valorizando meu trabalho e isso é muito bom”, fala.

Ela tem apenas uma preocupação. Fim de ano, para ela, é época de vacas magras nas vendas. “Em dezembro, as pessoas preferem as lojas pela facilidade do parcelamento. E isso eu não posso fazer. As vendas só voltam ao normal a partir de março. Em janeiro e fevereiro está todo mundo sem dinheiro”, explica.

Estratégia de vendas

Promotora de vendas da revista New Conits, a aposentada Maria do Carmo da Conceição Barbosa, de 64 anos, não tem do que reclamar nem mesmo no final de ano. Ela consegue dividir o pagamento das freguesas em duas vezes e, com isso, fica todo mundo feliz. Mesmo com pouco tempo disponível para mostrar os catálogos, ela tem se dado muito bem.

E explica por que: o fato de ser promotora dá a ela uma porcentagem de 50% sobre o valor dos produtos. A primeira parcela do dinheiro que recebe das freguesas é para pagar a empresa; a segunda fica para ela, é seu lucro. Dessa forma, todo mundo ganha, e Maria do Carmo aumenta suas comissões.

Mas não pense que foi fácil para ela chegar ao cargo de promotora de vendas. É preciso primeiro se mostrar uma boa revendedora. Por isso mesmo, há cinco anos, quando começou a passar os catálogos da New Conits, Maria do Carmo traçou sua estratégia para conquistar as clientes. Como os produtos, feitos à base de ervas medicinais, não eram muito conhecidos, ela comprava determinado produto, dividia o conteúdo da embalagem em frasquinhos e distribuía a clientes em potencial, como amostras grátis.

“Tem gente que só compra comigo porque eu sou a única revendedora que deixa usar o produto antes de comprar. Por isso, sempre que precisam de alguma coisa, as freguesas me ligam”, orgulha-se. Ela ainda revende Avon, De Millus e Natura. “Mas a New Conits é o único catálogo que faço questão de vender”, diz. Os outros ela não se esforça muito em passar porque a porcentagem que recebe é bem mais baixa – entre 20% e 25% -, o que lhe rende bem menos.

O dinheiro pode não ser muito, mas compensa. Com o que recebe de aposentadoria, Maria do Carmo paga suas contas. As comissões que recebe bancam suas despesas extras. “Quando comecei, tinha uma clientela muito boa e uma boa renda no fim do mês. Mas meu marido ficou doente e agora ainda tomo conta dos netos. Não sobra tempo para nada. De qualquer forma, esse dinheiro ajuda bastante”, diz.

Às interessadas em se tornar revendedoras, Maria do Carmo dá algumas dicas. Em primeiro lugar, é preciso verificar a qualidade dos produtos oferecidos. “Não adianta vender uma vez e depois perder o cliente. Também é preciso saber falar sobre cada produto, explicar como se usa cada um deles. E, de preferência, usar também. Você não pode recomendar uma coisa que não usaria”, afirma a aposentada.

Ela diz ainda que é preciso cumprir os prazos à risca e entregar os pedidos nas datas combinadas. E, o mais importante, evitar fazer um pedido de valor muito alto para uma única pessoa. “Se ela não pagar, você terá que arcar com o prejuízo”. Sendo assim, é bom se deixar um dinheiro guardado para resolver problemas como esse. “Fora isso, é sair de casa com determinação e as revistas debaixo do braço”.

Receita de cidadania

padeiras_cantagalo_01A receita é bombástica: junte num mesmo ambiente um grupo de mulheres, negras e pobres. Para aumentar o teor de exclusão, adicione baixo índice de escolaridade, idade média acima dos 40 anos e auto-estima reduzida. A consistência fica por conta de um mesmo ideal: resgatar a própria cidadania ao construir a Rede de Mulheres Negras Empreendedoras de Favelas e Periferias do Rio de Janeiro.

“Queremos formar multiplicadoras de conhecimento entre essas mulheres, que são totalmente excluídas do mercado de trabalho e da sociedade como um todo. Vamos fortalecê-las e mostrar o quanto elas são capazes e bonitas”, explica Silvana Batista Moreira, 44 anos, idealizadora e coordenadora do projeto. Como? Formando uma rede de mulheres que se ajudem mutuamente.

O primeiro passo está sendo dado no curso de padeiras do Cantagalo (Zona Sul do Rio). Quando o curso chegar ao fim, em dezembro, as oito melhores alunas serão capacitadas para dar aulas e repassar seus conhecimentos para a oficina seguinte. A próxima comunidade a receber o projeto será Vigário Geral (Zona Norte), no início do ano que vem. “Quando a turma de Vigário se formar, as melhores alunas de lá também se transformarão em professoras, e assim sucessivamente”, explica Silvana.

Selma e Silvana: parceiras na rede
Selma e Silvana: parceiras na rede

A idéia é fazer parcerias com outras iniciativas populares de mulheres, e formar uma rede de contatos onde cada comunidade busque os serviços dos projetos participantes, incentivando a produção e gerando renda. “Vamos supor que um pessoal da Penha queira fazer uma festa e faça parte da Rede. Aí, ao invés de procurar alguém de fora, elas podem encomendar os salgados e doces com as padeiras do Cantagalo. Os artigos de festa podem ser encomendados com outro projeto comunitário que se junte a nós, e seja especializado nisso. Assim o dinheiro circula e os projetos podem crescer”, exemplifica Silvana.

As novidades são muitas, mas a rede ainda está nascendo. Além da Associação das Padeiras Autônomas do Morro do Cantagalo Pão & Vida, o projeto deve ganhar a adesão das Passadeiras Comunitárias do Morro do Borel, na Tijuca (Zona Norte). O contato já foi feito. Mônica Santos, 32 anos, presidente do Grupo Equilibrar de Mulheres do Borel, que idealizou e implantou o projeto Passadeiras Comunitárias, assina embaixo da idéia.

“É muito importante fazer parte da Rede. Isso fortalece as iniciativas das comunidades que têm mulheres como protagonistas. Apesar de serem mulheres sem estudo, todas têm um potencial muito elevado e muita garra para realizar”, afirma.

Silvana busca mais parcerias. “Fiz contato também com uma moça de Vigário Geral que possui uma máquina de fraldas descartáveis. Ela faz as fraldas no quintal de casa, a um preço muito abaixo do que é cobrado por aí. Se não existe união para encarar o mercado, essas iniciativas se perdem e morrem”, diz a coordenadora.

Pão e cidadania

Selma criou a associação em 1998
Selma criou a associação em 1998

Essa história toda começou na cabeça criativa e frenética de Silvana, que há anos trabalha com projetos sociais. Além de estar à frente da Rede, ela integra o grupo cultural Afro Reggae e já trabalhava com uma instituição de alfabetização no Cantagalo. No ano passado Silvana teve a idéia de implementar um curso de costureiras no Espaço Criança Esperança, também no Cantagalo, e conseguiu financiamento do Fundo Afro do Ceap (Centro de Articulação de Populações Marginalizadas). “O curso aconteceu, mas teve muita evasão. Eu percebi que precisava me capacitar, para poder implantar algo que desse certo”, analisa.

Depois de ter aulas de gestão administrativa, ela decidiu montar a Rede e resolveu aproveitar uma iniciativa que já existia na comunidade de Ipanema: a associação das padeiras. Criada por Selma Marques, 51 anos, junto com outras 11 moradoras, a Pão e Vida já tinha algum tempo de estrada, tendo sido criada em 1998. O projeto do curso de padeiras foi aprovado pelo Ceap e pelo Fundo Angela Borba, e recebeu apoio financeiro das duas instituições.

As aulas começaram no dia 15 de agosto, e acontecem de segunda a sexta, das 10h às 13h. São 15 alunas, todas moradoras do Cantagalo, que aprendem mais do que fazer pães. Além de capacitar profissionalmente, o objetivo do curso é resgatar a cidadania e a auto-estima das integrantes, retirando-as da inércia e da ociosidade. Para isso são promovidos encontros semanais com debates e palestras sobre saúde sexual e reprodutiva, saúde da família, preservação do Meio Ambiente, Direitos Humanos e do Cidadão.

Lúcia: trabalho foi estímulo para voltar a estudar
Lúcia: trabalho foi estímulo para voltar a estudar

Resquício da escravidão

Silvana garante que, apesar do pouco tempo, a auto-valorização das alunas melhorou muito. A descoberta de que são capazes de exercer uma atividade profissional faz com que as mulheres se sintam até mais bonitas. “Tinha uma aluna que no começo vinha toda largada, com uma roupa puída e um lenço enrolando o cabelo. Eu comecei a puxar a orelha, dizer que lenço na cabeça é resquício da escravidão. Até o dia em que ela apareceu de banho tomado, cabelo solto, linda e cheirosa. Eu fiquei muito feliz”, conta.

Apesar de ter concluído um curso de auxiliar de enfermagem e exercido a profissão, Lúcia Maria de Souza, 48 anos, nunca terminou o ensino médio. Quando entrou no curso de padeiras, procurando uma alternativa de trabalho, preencheu uma ficha onde deveria informar seu grau de escolaridade. “A Silvana me perguntava por que eu tinha parado de estudar e eu não tinha uma resposta. Ela ficou no meu pé, não parava de falar nisso”, diz Lúcia, sorrindo.

Com o desempenho no curso indo de vento em popa e o apoio das colegas, Lúcia resolveu batalhar pelo diploma. Na segunda-feira, 29, inscreveu-se nos exames supletivos do Governo do estado. “Eu tinha parado de estudar há vinte anos. Estou me sentindo mais feliz. Agora vou conquistar duas coisas: aprender a fazer pão e me formar no 2º grau”, afirma ela, com uma ponta de orgulho.

Selma (E) ensina às próximas multiplicadoras
Selma (E) ensina às próximas multiplicadoras

Fora a valorização pessoal, Selma conta que o curso tem reflexos até no ambiente familiar. Quando passeia pela comunidade, ela costuma ser abordada por maridos e filhos das integrantes do projeto, que elogiam quitutes feitos em casa ou sugerir uma receita preferida. “O melhor é que elas fazem um salgado em casa que é mais nutritivo do que o comprado na rua e muito mais barato. E quando elas testam a receita em casa e dá certo é uma alegria que não há dinheiro que pague”, diz a professora.

Curso de padeiras

Assim que chegam ao local do curso – uma espécie de copa-cozinha cedida pelo Espaço Criança Esperança – as alunas prendem os cabelos, colocam uma touca de plástico, vestem um avental e lavam as mãos. As aulas são práticas: elas anotam as receitas e vão direto para o fogão, para o forno ou para uma grande mesa de fórmica, onde manuseiam os ingredientes das receitas.

“Elas aprendem geralmente cinco receitas novas por semana. E ficam praticando, testando, até o resultado sair perfeito”, explica Silvana. Entre as receitas já na ponta da língua estão: pão doce, empadinha, coxinha, pão caseiro, pão de batata, pão de queijo, sonho, quibe, pizza, bolinho de aipim, pastel e cachorro quente de forno.

Mulheres aprendem a fazer “sonhos” se tornarem realidade
Mulheres aprendem a fazer “sonhos” se tornarem realidade

Ao final do curso, as alunas estarão capacitadas a produzir docinhos, bolos, vários tipos de pães e salgados. Enquanto a rede não se estabelece, o público-alvo é formado pelos moradores da comunidade de cada oficina. “Não queremos vender nossos quitutes para o português da padaria. Queremos atender as encomendas do pessoal do Cantagalo”, afirma Selma.

A última lição aprendida pelas integrantes do projeto foi a receita de um pão doce. Aproveite a oportunidade para colocar a mão na massa e testar a cozinheira que existe dentro de você.

Pão doce

Ingredientes – massa

1 kg de farinha de trigo
1 colher de chá de sal
150g de margarina
4 ovos
2 copos americanos* de água ou leite
100g de açúcar (igual a um copo americano cheio)
40g de fermento
Ingredientes – creme

1 litro de leite
150g de açúcar (igual a um copo e meio americano)
100g de farinha de trigo
2 gemas
4 gotas de baunilha
50g de margarina
Ingredientes – brilho

1 copo americano de açúcar
1 copo americano de água
2 colheres de café de maisena
* Copo americano é a medida padrão, e é o equivalente a um copo de geléia.

Modo de fazer – massa

Coloque a farinha numa vasilha, faça uma cova no centro e despeje todos os ingredientes lá dentro. Com as mãos, vá misturando até dissolver toda a farinha. Sove bem a massa e deixe-a descansar coberta por um saco plástico por aproximadamente 10 minutos. Prepare as bolinhas dos pães, coloque em um tabuleiro untado e deixe por aproximadamente 30 minutos. Em um copo, misture uma gema com um fio de óleo e pincele a superfície de cada pão (é a gema que vai dar cor quando ele sair do forno). Confeite com o creme e coloque para assar em forno quente por aproximadamente 30 minutos. Ao retirar os pães do forno, pincele com o brilho.

Modo de fazer – creme

Coloque o leite numa panela e leve ao fogo. Quando estiver fervendo, misture a farinha e o açúcar, mexendo sempre. Apague o fogo e continue mexendo até esfriar e formar-se um creme consistente. Numa vasilha, bata as gemas com a baunilha e junte ao mingau. Misture bem e deixe esfriar. Depois é só confeitar os pães.

Dica: se você não tiver um saco confeiteiro, improvise. Pegue um saco vazio de açúcar, faça um pequeno corte numa das pontas e coloque o conteúdo do creme dentro do saco. Vá apertando o saco para confeitar.

Em busca de uma saída

Márcia*, 32 anos, ajudante de cozinha desempregada, esteve na Deam Centro para registrar queixa contra o companheiro, Gláucio*, 29, Quatro dias depois, ela voltou àquela delegacia. Queria retirar a queixa por medo de perder a guarda de sua filha de quase dois anos – acabou convencida a pensar melhor. Hoje você vai acompanhar a história dessa mulher, que foi traída, abandonada em plena gravidez, espancada e humilhada pelo parceiro e pela família dele.

“Estamos juntos desde 1999, com muitas idas e vindas. O meu erro foi ter saído do trabalho quando ele quis voltar da última vez. Estamos morando juntos de novo há quase um ano.

A gente se conheceu perto de casa, na Ilha do Governador (Zona Norte do Rio de Janeiro), e começou a namorar. Algum tempo depois eu engravidei, mas ele não ficou nem um pouco feliz com a notícia. Ficou me pressionando para que eu tirasse o bebê. Eu não queria fazer um aborto, eu quis ter e banquei a minha decisão. Por causa disso, ele me abandonou.

Uns dois meses depois ele me procurou, dizendo que estava arrependido, que me amava, que eu era a mulher da vida dele, que a gente ia ter o nosso bebê. E eu aceitei ele de volta. Mas quando eu estava com sete para oito meses de gravidez, peguei o Gláucio me traindo com outra mulher. Não perdoei e a gente se separou.

Ele ficou noivo dessa mulher durante quase um ano. Eu fui tocando a minha vida: arranjei um emprego de ajudante de cozinha e aluguei um quartinho. Não tinha muito, mas tinha todas as minhas coisas certinhas e estava bem. De repente, o Gláucio terminou com a mulher e começou a andar atrás de mim, dizendo as mesmas coisas: que queria voltar, que eu era a mulher da vida dele, que ele era o pai da minha filha.

Eu fui criada sem pai, sabe? Meu pai abandonou a minha mãe e é claro que eu senti falta de ter um pai comigo. Eu não queria isso para a minha filha, então, depois de muita insistência dele, acabei aceitando. Mas ele não queria namorar: mandou que eu saísse do quartinho e largasse o emprego. E começou a me prender, e implicar com tudo. Eu acabei me afastando da minha família. Sem o emprego, dependia dele para tudo. Trabalhava o tempo todo dentro de casa, como se fosse a empregada dele.

O Gláucio trabalha instalando TV a cabo, é autônomo. Ele entra e sai de casa a hora que quer. Não me dá satisfação, não me diz de onde vem, nem para onde vai. Já eu não posso fazer nada. Não posso visitar meus parentes, nem minhas amigas. Não me divirto nunca, quase não saio de casa. A nossa filha só pode ter contato com a família dele, nunca com a minha. Ela vai fazer dois anos e não entende nada!

Estou sempre engolindo as coisas. No verão, pedi a ele que nos levasse à praia um dia, eu e a menina. O tempo foi passando, o verão acabando e ele nada. Eu pedi várias vezes. Até que um dia, resolvi ir com ela, sozinha, mesmo sem ele querer. Quando cheguei em casa, foi aquele escândalo. Eu realmente tinha demorado um pouco: fiz as coisas em casa, dei almoço para a menina e saí era pouco mais de uma da tarde. Voltei para casa eram quase seis. Mas nem é que eu tenha ficado me esbaldando não, é que a praia é longe à beça. Eu moro numa área da Aeronáutica, na Ilha do Governador, que é longe de tudo. Para você ter idéia, o ponto de ônibus mais próximo fica a sete quadras da minha casa. Parece até que isso já foi premeditado, para eu ficar o mais isolada possível.

Aí quando cheguei em casa, começou a briga. Ele me xingou, falou que eu era isso e aquilo, e eu reagi, dizendo que se tivesse marido para sair comigo, não teria ido sozinha. Mas dessa vez ele não chegou a me bater, não.

Eu dei queixa contra ele porque, na semana passada, duas colegas que eu não via há muito tempo foram me visitar. Elas chegaram lá em casa, almoçaram e beberam cerveja. Eu não bebi nem um gole, porque estava tomando antibiótico e passando uma pomada ginecológica.

Quando acabou o almoço, fui com elas e com a minha filha até a Praia do Galeão, onde montaram um videokê na pracinha. Até fiquei com um pouco de medo na hora de ir, mas depois deixei para lá e não me preocupei porque todo mundo conhece ele. Ele foi criado ali, então eu estava no meio de gente conhecida.

Foi muito legal, fiquei conversando com as minhas amigas e a minha filha ficou louca com o videokê. À noite, liguei para ele e pedi para ir me buscar de carro. Eu percebi que ele não tinha gostado, mas foi mesmo assim. Quando chegou lá, o Gláucio ficou com uma cara emburrada, mal-humorado, e eu pedi para ele descer para pelo menos cumprimentar as minhas amigas, não fazer desfeita para elas. Eu não trato os amigos dele assim, sempre sou educada e tudo o mais. Ele simplesmente foi embora.

Eu fiquei com medo e chateada e comecei a chorar. A moça do trailer, que conhece a gente há um tempão, disse que eu era uma boba, que não devia ficar triste e que ele não podia me ver contente nem sorrindo, que sempre queria estragar a minha alegria. E que eu acabava sempre chorando.

Meia hora depois eu liguei de novo, pedindo para ele ir me buscar, tentando não brigar. Assim que entrei no carro, ele começou a falar que tinha homem na mesa onde eu estava sentada com as minhas amigas. E não tinha homem nenhum com a gente, os homens estavam sentados numa mesa lá. Mas a pracinha é pública e eu não posso mandar os homens embora, eu nem estava prestando atenção neles. Ele disse que eu era uma vagabunda e daí para baixo. Assim que chegamos em casa, ele trancou a porta e começamos a discutir. Ele me chutou, bateu e me deu socos. A minha mão ficou toda roxa e inchada, e tive uma luxação no ombro.

Ele partiu para cima de mim, me agredindo. Teve uma hora que consegui abrir a janela e gritei. Mas nessas horas ninguém faz nada, ninguém vem ajudar. A vizinha viu quando ele me jogou no chão e foi me chutando, do quarto para a sala. E ele é enorme, dá três de mim. Cada safanão que ele me dá, eu vou parar longe. Teve uma hora em que consegui me levantar, segurei no pescoço dele e ele ficou arranhado.

De repente, ele ligou para os pais e disse: “Pelo amor de Deus, venham para cá senão eu vou acabar batendo nela”. Disse que eu é que tinha começado a bater nele e que ele só estava reagindo. O pais dele chegaram, ficaram comigo e mandaram o Gláucio para a casa deles. Mas não porque eles gostem de mim ou por preocupação, mas porque estavam com medo de eu entrar com uma queixa contra ele.

Eu liguei para o meu irmão, que estava em Cabo Frio, e ele me deu a maior força. Disse para eu denunciar o Gláucio na hora, porque eu poderia ter feito qualquer coisa que ele não tinha o direito de me bater. A minha sogra pegou o telefone e tentou convencer o meu irmão do contrário, que era para ele tirar da minha cabeça a idéia de denunciá-lo.

A família dele sempre foi contra o nosso relacionamento, pelo lado financeiro. Eu sou pobre, a minha família é pobre e eles, se não são ricos, têm condições boas. Eles nunca me deram nada, tudo está no nome dos pais dele, para, no caso da gente se separar, eu não ter direito a nada. O plano de saúde, por exemplo, quem paga é o Gláucio, mas os pais dele é que controlam o uso. Sempre que quero ir ao médico ou levar a minha filha, tenho que pedir a eles. Todos os eletrodomésticos lá de casa são comprados no nome da mãe dele.

Eu não ligo para isso, porque não quero nada dele, não quero dinheiro nem nada. Só quero a minha filha e a minha vida.

Nesse dia da briga, eu fui para a casa da minha tia. A gente veio para a Delegacia da Mulher e passou a noite fora: eu dei queixa, fui fazer o exame de corpo de delito, estive no Instituto Médico Legal e depois no hospital para fazer exames e curativos. Às sete e meia da manhã, quando cheguei na casa da minha mãe, ela me disse que o Gláucio tinha estado lá, naquela manhã. Que ele tinha chorado muito e dito que estava arrependido. Mas que eu estava agressiva demais e que parecia possuída por uma força ruim.

Engraçado isso: ele me espanca e eu é que estava possuída.

À tarde ele voltou lá, acompanhado da minha sogra. Mas desta vez estava totalmente diferente: me xingou de puta para baixo, dizendo que eu era uma vadia, que não tinha nada e que ele ia tirar a minha filha de mim. Ameaçou: se eu pegar você na rua com a nossa filha, se prepara porque eu tiro ela de você na hora.

Eu tenho medo disso. Tenho medo porque o Gláucio tem dinheiro, eu não tenho nada. O juiz pode querer tirar a minha filha de mim e dar para ele. Ainda mais porque todo mundo sabe da história, eu poderia ter testemunhas, mas ninguém quer falar nada. Então não tenho como provar.

O Gláucio não sabe que eu já dei queixa. Ele disse que ia sair de casa e me deixar com a nossa filha lá, mas voltou atrás. Acho que ele quer me deixar louca, para eu sair de casa e perder tudo por abandono de lar. Tenho certeza de que tudo foi arquitetado pelos pais dele, porque ele não tem tanta maldade para articular isso tudo. Ele começou a me pressionar, dizendo que se eu desse queixa ele iria contratar os melhores advogados e eu ia perder a nossa filha.

Por isso eu aceitei voltar para casa, e pensei em retirar a queixa. Mas eu não sou safada, daria tudo para nunca mais ter que olhar na cara dele. É horrível ter que conviver com uma pessoa com quem você não tem a menor consideração. Mas não quero perder a minha filha, e por ela eu faço qualquer coisa. Estou desempregada, não tenho casa e o juiz nunca vai dar a minha filha para mim. Por isso voltei para casa e me humilhei.

Eu sou obrigada a engolir, pelo medo de perder a minha filha, porque infelizmente a Justiça falha para o lado do pobre. Mas eu não vou perder a fé. Vou procurar um emprego, fazer as coisas com calma e, quando estiver tudo arrumado, aí sim me livro dele. Eu sou trabalhadora, pego qualquer serviço que aparecer. Estou pensando em retirar a queixa só para ele não descobrir agora e atrapalhar os meus planos. Mas tenho certeza de que o futuro vai ser melhor, para mim e para a minha filha.”

*Para garantir o anonimato da denunciante, os nomes de todos os personagens deste caso são fictícios.

Se você se encontra em uma situação de violência, estes são os locais onde você pode pedir ajuda:

Delegacias de Mulheres no Estado do Rio de Janeiro

DEAM Legal Centro
Rua Visconde do Rio Branco, 12
Tels.: 3399-3370/ 3371/ 3372/ 3374/ 3376.

DEAM Legal Belford Roxo
Av. Retiro da Imprensa, 800
Tels.: 3399-3530/ 3980/ 3982.

DEAM Caxias
Rua Tenente José Dias, 344, Centro
Tels.: 3399-3710/ 3711/ 2671-7757.

DEAM Nova Iguaçu
Rua Joaquim Sepa, 180, Marco 2
Tel.: 3399-3720/ 3718/ 2667-4121.

DEAM São Gonçalo
Av. Dezoito do Forte, 578, Mutuá
Tels.: 3399-3730/ 3733.

Chapa quente no Borel

passadeiras_borel_08_tratA chapa está esquentando no Morro do Borel, na Tijuca, Zona Norte do Rio. Mulheres da comunidade acabam de colocar em prática o primeiro projeto social criado, elaborado, produzido e estrelado pelas Passadeiras Comunitárias. Reunidas no Grupo Equilibrar, e ocupando uma sala emprestada pela Associação de Moradores, duas passadeiras -selecionadas entre mais de 20 moradoras candidatas – passam toda a roupa de 26 famílias cadastradas. Dois adolescentes, também moradores do Borel, pegam e entregam as roupas na casa dos clientes. Tudo por um preço camarada: R$ 40 por mês.

A originalidade do projeto se justifica pela faixa etária do público-alvo, explica Mônica Santos, 32 anos, presidente do Grupo Equilibrar de Mulheres do Borel. “A maioria esmagadora dos projetos sociais é voltada para jovens ou crianças. As mulheres na faixa dos 35 a 60 anos são sempre esquecidas, e raramente têm uma oportunidade no mercado de trabalho. Ainda mais porque grande parte delas não tem qualificação profissional.”

Sueli, Angela e Idenir da trupe Equilibrar
Sueli, Angela e Idenir da trupe Equilibrar

Além de Mônica, outras cinco mulheres integram a trupe do Equilibrar. São elas: Dulcinéa Oliveira, 42 anos, vice-presidente; Idenir Adriano de Ciles, 58, Presidente do Conselho Fiscal – “Ah é? Eu nem sabia que eu era isso aí!”, sorri ela – Marlete Tavares, 45, supervisora e suplente do Conselho Fiscal; Sueli Domingas, 43, tesoureira, e Angela Callegário, 36, secretária.

“O Passadeiras é diferente porque não foi ninguém de fora que chegou, disse o que a comunidade precisava e jogou um programa aqui. O nosso projeto é de dentro para fora, tanto que vamos até expandir”, resume Angela.

E é verdade: apesar de recém-nascido, o projeto já está despertando o interesse de outras comunidades e de uma rede de lojas de roupas. “A gente está indo aos poucos, mas o objetivo é criar o máximo possível de postos de trabalho. Queremos expandir e buscar parceria com empresas privadas”, diz Mônica.

Sistema de pontos

O serviço funciona através de um sistema de pontos. Após efetuar o cadastro, o cliente define o dia da semana e o horário em que o entregador deve buscar a roupa em sua casa e em que dia deve entregá-la. Em seguida ele recebe uma tabela com as pontuações para cada tipo de roupa, podendo chegar até 50 pontos semanais. Uma camisa social de manga longa equivale a 3 pontos; uma camiseta de malha, 1,5 ponto e um vestido simples, 2 pontos. Já um terno soma 10 pontos e uma cortina, o item mais caro da tabela, 20.

Monica: luta por trabalho
Monica: luta por trabalho

“As roupas são entregues no dia seguinte, no máximo dois dias depois. As peças vão ensacadas e penduradas. É barato em relação ao mercado, já que uma diarista cobra em média R$ 50 para passar roupa durante um dia inteiro”, explica Angela.

O projeto funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h. As passadeiras trabalham em horário integral, e os entregadores são adolescentes que cumprem meio expediente. “Por isso tem que ser um menino que conheça bem a comunidade, para ir atrás de referências informais”, diz Angela.

Segundo a agente comunitária de saúde Lourdes Maria da Conceição, o serviço das Passadeiras Comunitárias facilitou totalmente a sua vida. “Nunca tive tempo para arrumar as roupas de toda família. Mas desde que passei a ser cliente das Passadeiras, consegui arrumar o armário de todos aqui em casa em três semanas”, comemora.

Para Lourdes, o serviço deveria ser ampliado. “Elas deveriam começar a costurar também”, comenta. Ela acredita que o projeto está dando muito certo e deve continuar. “Além de gerar empregos para os adolescentes do Borel, o serviço é de primeiro mundo e é cobrado um preço muito acessível”, diz Lourdes.

Machismo foi combustível

Os caminhos dessa mulherada não se cruzaram à toa: todas elas eram ligadas, de uma forma ou de outra, à liderança comunitária do morro. Em maio de 2002, a Associação de Moradores estava em polvorosa: três chapas disputavam as eleições para o mandato seguinte. Em uma das concorrentes, o candidato a presidente era Jonas Gonçalves, marido de Sueli. “Algumas mulheres se juntaram para ajudar na campanha da chapa do Jonas. Outras já faziam parte da Associação. Mas todas estavam interessadas no bem-estar da comunidade”, explica Angela.

Angela presa pela qualidade do serviço
Angela presa pela qualidade do serviço

“A gente queria chacoalhar aquilo lá, arregaçar as mangas. Mas tivemos dificuldades por causa do machismo”, explicita Mônica. Enquanto a chapa de Jonas ganhava as eleições, as mulheres resolveram unir forças e partir em busca de um espaço próprio. As prioridades foram definidas por elas e por mais ninguém.

Na teoria a iniciativa era sensacional, mas, na prática, o mundo não era tão cor-de-rosa assim. As intenções eram as melhores, e força de vontade não faltava. Mas ninguém sabia por onde começar. “Foi quando a Ademilza, que era candidata à presidência do Conselho Fiscal, nos falou sobre o curso do Cieds”, explica Idenir.

No curso do Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável (Cieds), o grupo recebeu lições de empreendedorismo social, elaboração de projetos e gestão social. O desafio seguinte era dar forma a um projeto que fosse capaz de atender a várias necessidades de uma só vez: além de gerar renda para dentro da comunidade, teria que criar postos de trabalho, ter possibilidade de expansão e atender às necessidades das mulheres desempregadas. “A cada 15 famílias cadastradas, cria-se um posto de trabalho para mais um adolescente e uma passadeira. Por isso dependemos da qualidade do nosso serviço”, explica Angela.

O projeto dos sonhos do Equilibrar teria ainda que criar serviços para a própria comunidade. “Muitas moradoras do Borel trabalham fora, ou passam o dia inteiro limpando a casa dos outros e não têm tempo para cuidar das próprias roupas”, diz Mônica. Um projeto de mulher para mulher: a idéia de criar o Passadeiras Comunitárias surgiu dentro de um ônibus, enquanto o grupo se dirigia para mais um dia de aulas. “A gente estava conversando, pensando em mulher, facilidades para mulher, mulher, mulher… Aí, de repente, surgiu um estalo. Nós praticamente parimos o projeto”, diverte-se Angela.

Além do ideal, um incentivo a mais fez com que o grupo Equilibrar se agarrasse com unhas e dentes ao Cieds: no final do curso, os três melhores projetos desenvolvidos pelos alunos ganhariam uma verba do Ministério da Justiça, para custear a saída do papel. “A gente mergulhou de cabeça. Tinha dias que saíamos de lá depois de meia-noite, estudando e montando o projeto”, conta Sueli.

O empenho deu resultados. Em meio a projetos de todo o Rio de Janeiro – “tinha grupos da Tijuca, de Copacabana, de Niterói, de Caxias, de Santa Cruz e muito mais”, lembra Idenir – o grupo Equilibrar conseguiu a terceira colocação. E ganhou uma verba de R$ 2,5 mil.

Celeiro de investimentos

Sueli e Maria se ajudam no trabalho
Sueli e Maria se ajudam no trabalho

Com o micro crédito, elas conseguiram viabilizar o Passadeiras Comunitárias. Uma parceria com a associação de moradores garantiu o espaço, um ambulatório dentário que não funcionava. “A gente quase teve que arrancar essa sala do Jonas, o marido da Sueli. Só faltou bater nele”, brinca Idenir.

Parte do dinheiro foi usado na pintura da sede e numa pequena reforma, com mudança de instalação elétrica, ventiladores de teto e araras para as roupas. A mão-de-obra foi de graça, uma colaboração dos maridos das integrantes. O restante do dinheiro foi gasto em divulgação, compra de material – como ferro de passar, amaciantes, sacos plásticos, tábuas de passar e extintor de incêndio – e uma quantia separada para garantir o salário das passadeiras durante dois meses.

Quem não recebe nem um tostão pelo trabalho são as integrantes do Equilibrar. Todas são voluntárias no projeto, até o dia em que o Passadeiras Comunitárias possa caminhar com as próprias pernas – e elas possam receber um salário por seus cargos. A sobrevivência é assegurada através de trabalhos fora da comunidade. Mônica é radialista; Idenir é costureira; Sueli é auxiliar administrativa; Dulcinéa é doméstica; Marlete faz transporte escolar e Angela é professora, mas está desempregada desde que a creche em que trabalhava fechou.

A verba já está quase no fim, e por isso o Equilibrar está em busca de novas parcerias. “Nós mandamos o projeto para as ONGs Brazil Foundation, Angela Borba e para o Fundo Carioca. Buscamos financiamento só para engrenar, porque depois o projeto é auto-sustentável”, diz Angela.

O salário mínimo também não enche os olhos das passadeiras. Mas a fé no projeto é intensa e a esperança é o que mantém D. Sueli de Souza, 58 anos, passando roupa o dia todo. “Eu não pretendo sair porque acredito que vai dar certo, vai crescer e aí o salário pode melhorar. A gente faz o que pode, capricha no serviço. Ainda mais porque é para o pessoal da nossa comunidade”, sorri ela.

Maria espera melhorias
Maria espera melhorias

Já Maria Helena Rodrigues, de 47 anos, não é tão otimista. Mostrando as pernas inchadas pelo esforço de ficar em pé o dia inteiro, ela diz que gosta muito do projeto, acha a idéia maravilhosa, mas que as condições financeiras têm que melhorar, e logo. “A gente não tem carteira assinada, não tem benefícios. Descontando tudo o que gasto, acaba que ganho R$ 170 por mês, e hoje em dia isto não dá para nada. Espero que a gente consiga um vale transporte, uma cesta básica ou um aumento no salário. Qualquer coisa já valeria a pena”, afirma ela, que ainda vende quentinhas nas horas vagas.

Meta é chegar ao asfalto

Se depender da força de idéias e força de vontade das mulheres do Equilibrar, Maria Helena vai continuar no projeto até o fim dos tempos. Elas têm planos de formar parcerias, atuar em várias frentes, batalhar por melhorias dentro do Passadeiras e até aprofundar o acompanhamento dos adolescentes.

Os entregadores recebem ajuda de custo de meio salário mínimo, mas o objetivo é acompanhar também a família dos jovens e a evolução escolar. “O importante é acabar com a ociosidade, para afastá-los de caminhos errados. Seria bom também se pudéssemos contribuir com uma cesta básica por mês para a família”, diz Angela.

Já na parte de expansão, o grupo aposta as fichas em três caminhos. Um deles é levar o projeto a outras comunidades. O primeiro contato já está sendo feito, com o pessoal do Morro dos Macacos, no Jardim Botânico, Zona Sul do Rio. O Equilibrar entraria com o conhecimento e capacitação de pessoal, e em troca receberia uma porcentagem, ainda não estipulada, do lucro. “É um processo ainda em construção, não sabemos direito como vai ser. Mas já tem muita comunidade interessada, até uma em Queimados”, conta a secretária.

Outro caminho será o de transformar as passadeiras em oficineiras, e permanecer capacitando profissionalmente as mulheres que se interessarem. “Assim, as 17 que não passaram na nossa seleção, por exemplo, poderiam estar aprendendo. E, no futuro, poderiam repassar o conhecimento a outras pessoas”, diz Idenir. Esta seria a forma de poder fechar contrato com a empresa Leader Magazine, que se interessou em contratar os serviços das Passadeiras.

Por fim, o objetivo é, no futuro, levar o serviço para o asfalto. Os primeiros a serem beneficiados serão os condomínios da Rua Conde de Bonfim, na Tijuca. “As pessoas de classe média não querem mandar suas roupas para a favela, têm medo, preconceito. Mas não tem problema: a nossa idéia é capacitar várias mulheres e poder mandar uma passadeira até a casa do cliente”, diz Angela. Ou seja: se o cliente não vai até a favela, a favela vai até ele.