Receita de cidadania

padeiras_cantagalo_01A receita é bombástica: junte num mesmo ambiente um grupo de mulheres, negras e pobres. Para aumentar o teor de exclusão, adicione baixo índice de escolaridade, idade média acima dos 40 anos e auto-estima reduzida. A consistência fica por conta de um mesmo ideal: resgatar a própria cidadania ao construir a Rede de Mulheres Negras Empreendedoras de Favelas e Periferias do Rio de Janeiro.

“Queremos formar multiplicadoras de conhecimento entre essas mulheres, que são totalmente excluídas do mercado de trabalho e da sociedade como um todo. Vamos fortalecê-las e mostrar o quanto elas são capazes e bonitas”, explica Silvana Batista Moreira, 44 anos, idealizadora e coordenadora do projeto. Como? Formando uma rede de mulheres que se ajudem mutuamente.

O primeiro passo está sendo dado no curso de padeiras do Cantagalo (Zona Sul do Rio). Quando o curso chegar ao fim, em dezembro, as oito melhores alunas serão capacitadas para dar aulas e repassar seus conhecimentos para a oficina seguinte. A próxima comunidade a receber o projeto será Vigário Geral (Zona Norte), no início do ano que vem. “Quando a turma de Vigário se formar, as melhores alunas de lá também se transformarão em professoras, e assim sucessivamente”, explica Silvana.

Selma e Silvana: parceiras na rede
Selma e Silvana: parceiras na rede

A idéia é fazer parcerias com outras iniciativas populares de mulheres, e formar uma rede de contatos onde cada comunidade busque os serviços dos projetos participantes, incentivando a produção e gerando renda. “Vamos supor que um pessoal da Penha queira fazer uma festa e faça parte da Rede. Aí, ao invés de procurar alguém de fora, elas podem encomendar os salgados e doces com as padeiras do Cantagalo. Os artigos de festa podem ser encomendados com outro projeto comunitário que se junte a nós, e seja especializado nisso. Assim o dinheiro circula e os projetos podem crescer”, exemplifica Silvana.

As novidades são muitas, mas a rede ainda está nascendo. Além da Associação das Padeiras Autônomas do Morro do Cantagalo Pão & Vida, o projeto deve ganhar a adesão das Passadeiras Comunitárias do Morro do Borel, na Tijuca (Zona Norte). O contato já foi feito. Mônica Santos, 32 anos, presidente do Grupo Equilibrar de Mulheres do Borel, que idealizou e implantou o projeto Passadeiras Comunitárias, assina embaixo da idéia.

“É muito importante fazer parte da Rede. Isso fortalece as iniciativas das comunidades que têm mulheres como protagonistas. Apesar de serem mulheres sem estudo, todas têm um potencial muito elevado e muita garra para realizar”, afirma.

Silvana busca mais parcerias. “Fiz contato também com uma moça de Vigário Geral que possui uma máquina de fraldas descartáveis. Ela faz as fraldas no quintal de casa, a um preço muito abaixo do que é cobrado por aí. Se não existe união para encarar o mercado, essas iniciativas se perdem e morrem”, diz a coordenadora.

Pão e cidadania

Selma criou a associação em 1998
Selma criou a associação em 1998

Essa história toda começou na cabeça criativa e frenética de Silvana, que há anos trabalha com projetos sociais. Além de estar à frente da Rede, ela integra o grupo cultural Afro Reggae e já trabalhava com uma instituição de alfabetização no Cantagalo. No ano passado Silvana teve a idéia de implementar um curso de costureiras no Espaço Criança Esperança, também no Cantagalo, e conseguiu financiamento do Fundo Afro do Ceap (Centro de Articulação de Populações Marginalizadas). “O curso aconteceu, mas teve muita evasão. Eu percebi que precisava me capacitar, para poder implantar algo que desse certo”, analisa.

Depois de ter aulas de gestão administrativa, ela decidiu montar a Rede e resolveu aproveitar uma iniciativa que já existia na comunidade de Ipanema: a associação das padeiras. Criada por Selma Marques, 51 anos, junto com outras 11 moradoras, a Pão e Vida já tinha algum tempo de estrada, tendo sido criada em 1998. O projeto do curso de padeiras foi aprovado pelo Ceap e pelo Fundo Angela Borba, e recebeu apoio financeiro das duas instituições.

As aulas começaram no dia 15 de agosto, e acontecem de segunda a sexta, das 10h às 13h. São 15 alunas, todas moradoras do Cantagalo, que aprendem mais do que fazer pães. Além de capacitar profissionalmente, o objetivo do curso é resgatar a cidadania e a auto-estima das integrantes, retirando-as da inércia e da ociosidade. Para isso são promovidos encontros semanais com debates e palestras sobre saúde sexual e reprodutiva, saúde da família, preservação do Meio Ambiente, Direitos Humanos e do Cidadão.

Lúcia: trabalho foi estímulo para voltar a estudar
Lúcia: trabalho foi estímulo para voltar a estudar

Resquício da escravidão

Silvana garante que, apesar do pouco tempo, a auto-valorização das alunas melhorou muito. A descoberta de que são capazes de exercer uma atividade profissional faz com que as mulheres se sintam até mais bonitas. “Tinha uma aluna que no começo vinha toda largada, com uma roupa puída e um lenço enrolando o cabelo. Eu comecei a puxar a orelha, dizer que lenço na cabeça é resquício da escravidão. Até o dia em que ela apareceu de banho tomado, cabelo solto, linda e cheirosa. Eu fiquei muito feliz”, conta.

Apesar de ter concluído um curso de auxiliar de enfermagem e exercido a profissão, Lúcia Maria de Souza, 48 anos, nunca terminou o ensino médio. Quando entrou no curso de padeiras, procurando uma alternativa de trabalho, preencheu uma ficha onde deveria informar seu grau de escolaridade. “A Silvana me perguntava por que eu tinha parado de estudar e eu não tinha uma resposta. Ela ficou no meu pé, não parava de falar nisso”, diz Lúcia, sorrindo.

Com o desempenho no curso indo de vento em popa e o apoio das colegas, Lúcia resolveu batalhar pelo diploma. Na segunda-feira, 29, inscreveu-se nos exames supletivos do Governo do estado. “Eu tinha parado de estudar há vinte anos. Estou me sentindo mais feliz. Agora vou conquistar duas coisas: aprender a fazer pão e me formar no 2º grau”, afirma ela, com uma ponta de orgulho.

Selma (E) ensina às próximas multiplicadoras
Selma (E) ensina às próximas multiplicadoras

Fora a valorização pessoal, Selma conta que o curso tem reflexos até no ambiente familiar. Quando passeia pela comunidade, ela costuma ser abordada por maridos e filhos das integrantes do projeto, que elogiam quitutes feitos em casa ou sugerir uma receita preferida. “O melhor é que elas fazem um salgado em casa que é mais nutritivo do que o comprado na rua e muito mais barato. E quando elas testam a receita em casa e dá certo é uma alegria que não há dinheiro que pague”, diz a professora.

Curso de padeiras

Assim que chegam ao local do curso – uma espécie de copa-cozinha cedida pelo Espaço Criança Esperança – as alunas prendem os cabelos, colocam uma touca de plástico, vestem um avental e lavam as mãos. As aulas são práticas: elas anotam as receitas e vão direto para o fogão, para o forno ou para uma grande mesa de fórmica, onde manuseiam os ingredientes das receitas.

“Elas aprendem geralmente cinco receitas novas por semana. E ficam praticando, testando, até o resultado sair perfeito”, explica Silvana. Entre as receitas já na ponta da língua estão: pão doce, empadinha, coxinha, pão caseiro, pão de batata, pão de queijo, sonho, quibe, pizza, bolinho de aipim, pastel e cachorro quente de forno.

Mulheres aprendem a fazer “sonhos” se tornarem realidade
Mulheres aprendem a fazer “sonhos” se tornarem realidade

Ao final do curso, as alunas estarão capacitadas a produzir docinhos, bolos, vários tipos de pães e salgados. Enquanto a rede não se estabelece, o público-alvo é formado pelos moradores da comunidade de cada oficina. “Não queremos vender nossos quitutes para o português da padaria. Queremos atender as encomendas do pessoal do Cantagalo”, afirma Selma.

A última lição aprendida pelas integrantes do projeto foi a receita de um pão doce. Aproveite a oportunidade para colocar a mão na massa e testar a cozinheira que existe dentro de você.

Pão doce

Ingredientes – massa

1 kg de farinha de trigo
1 colher de chá de sal
150g de margarina
4 ovos
2 copos americanos* de água ou leite
100g de açúcar (igual a um copo americano cheio)
40g de fermento
Ingredientes – creme

1 litro de leite
150g de açúcar (igual a um copo e meio americano)
100g de farinha de trigo
2 gemas
4 gotas de baunilha
50g de margarina
Ingredientes – brilho

1 copo americano de açúcar
1 copo americano de água
2 colheres de café de maisena
* Copo americano é a medida padrão, e é o equivalente a um copo de geléia.

Modo de fazer – massa

Coloque a farinha numa vasilha, faça uma cova no centro e despeje todos os ingredientes lá dentro. Com as mãos, vá misturando até dissolver toda a farinha. Sove bem a massa e deixe-a descansar coberta por um saco plástico por aproximadamente 10 minutos. Prepare as bolinhas dos pães, coloque em um tabuleiro untado e deixe por aproximadamente 30 minutos. Em um copo, misture uma gema com um fio de óleo e pincele a superfície de cada pão (é a gema que vai dar cor quando ele sair do forno). Confeite com o creme e coloque para assar em forno quente por aproximadamente 30 minutos. Ao retirar os pães do forno, pincele com o brilho.

Modo de fazer – creme

Coloque o leite numa panela e leve ao fogo. Quando estiver fervendo, misture a farinha e o açúcar, mexendo sempre. Apague o fogo e continue mexendo até esfriar e formar-se um creme consistente. Numa vasilha, bata as gemas com a baunilha e junte ao mingau. Misture bem e deixe esfriar. Depois é só confeitar os pães.

Dica: se você não tiver um saco confeiteiro, improvise. Pegue um saco vazio de açúcar, faça um pequeno corte numa das pontas e coloque o conteúdo do creme dentro do saco. Vá apertando o saco para confeitar.

Em busca de uma saída

Márcia*, 32 anos, ajudante de cozinha desempregada, esteve na Deam Centro para registrar queixa contra o companheiro, Gláucio*, 29, Quatro dias depois, ela voltou àquela delegacia. Queria retirar a queixa por medo de perder a guarda de sua filha de quase dois anos – acabou convencida a pensar melhor. Hoje você vai acompanhar a história dessa mulher, que foi traída, abandonada em plena gravidez, espancada e humilhada pelo parceiro e pela família dele.

“Estamos juntos desde 1999, com muitas idas e vindas. O meu erro foi ter saído do trabalho quando ele quis voltar da última vez. Estamos morando juntos de novo há quase um ano.

A gente se conheceu perto de casa, na Ilha do Governador (Zona Norte do Rio de Janeiro), e começou a namorar. Algum tempo depois eu engravidei, mas ele não ficou nem um pouco feliz com a notícia. Ficou me pressionando para que eu tirasse o bebê. Eu não queria fazer um aborto, eu quis ter e banquei a minha decisão. Por causa disso, ele me abandonou.

Uns dois meses depois ele me procurou, dizendo que estava arrependido, que me amava, que eu era a mulher da vida dele, que a gente ia ter o nosso bebê. E eu aceitei ele de volta. Mas quando eu estava com sete para oito meses de gravidez, peguei o Gláucio me traindo com outra mulher. Não perdoei e a gente se separou.

Ele ficou noivo dessa mulher durante quase um ano. Eu fui tocando a minha vida: arranjei um emprego de ajudante de cozinha e aluguei um quartinho. Não tinha muito, mas tinha todas as minhas coisas certinhas e estava bem. De repente, o Gláucio terminou com a mulher e começou a andar atrás de mim, dizendo as mesmas coisas: que queria voltar, que eu era a mulher da vida dele, que ele era o pai da minha filha.

Eu fui criada sem pai, sabe? Meu pai abandonou a minha mãe e é claro que eu senti falta de ter um pai comigo. Eu não queria isso para a minha filha, então, depois de muita insistência dele, acabei aceitando. Mas ele não queria namorar: mandou que eu saísse do quartinho e largasse o emprego. E começou a me prender, e implicar com tudo. Eu acabei me afastando da minha família. Sem o emprego, dependia dele para tudo. Trabalhava o tempo todo dentro de casa, como se fosse a empregada dele.

O Gláucio trabalha instalando TV a cabo, é autônomo. Ele entra e sai de casa a hora que quer. Não me dá satisfação, não me diz de onde vem, nem para onde vai. Já eu não posso fazer nada. Não posso visitar meus parentes, nem minhas amigas. Não me divirto nunca, quase não saio de casa. A nossa filha só pode ter contato com a família dele, nunca com a minha. Ela vai fazer dois anos e não entende nada!

Estou sempre engolindo as coisas. No verão, pedi a ele que nos levasse à praia um dia, eu e a menina. O tempo foi passando, o verão acabando e ele nada. Eu pedi várias vezes. Até que um dia, resolvi ir com ela, sozinha, mesmo sem ele querer. Quando cheguei em casa, foi aquele escândalo. Eu realmente tinha demorado um pouco: fiz as coisas em casa, dei almoço para a menina e saí era pouco mais de uma da tarde. Voltei para casa eram quase seis. Mas nem é que eu tenha ficado me esbaldando não, é que a praia é longe à beça. Eu moro numa área da Aeronáutica, na Ilha do Governador, que é longe de tudo. Para você ter idéia, o ponto de ônibus mais próximo fica a sete quadras da minha casa. Parece até que isso já foi premeditado, para eu ficar o mais isolada possível.

Aí quando cheguei em casa, começou a briga. Ele me xingou, falou que eu era isso e aquilo, e eu reagi, dizendo que se tivesse marido para sair comigo, não teria ido sozinha. Mas dessa vez ele não chegou a me bater, não.

Eu dei queixa contra ele porque, na semana passada, duas colegas que eu não via há muito tempo foram me visitar. Elas chegaram lá em casa, almoçaram e beberam cerveja. Eu não bebi nem um gole, porque estava tomando antibiótico e passando uma pomada ginecológica.

Quando acabou o almoço, fui com elas e com a minha filha até a Praia do Galeão, onde montaram um videokê na pracinha. Até fiquei com um pouco de medo na hora de ir, mas depois deixei para lá e não me preocupei porque todo mundo conhece ele. Ele foi criado ali, então eu estava no meio de gente conhecida.

Foi muito legal, fiquei conversando com as minhas amigas e a minha filha ficou louca com o videokê. À noite, liguei para ele e pedi para ir me buscar de carro. Eu percebi que ele não tinha gostado, mas foi mesmo assim. Quando chegou lá, o Gláucio ficou com uma cara emburrada, mal-humorado, e eu pedi para ele descer para pelo menos cumprimentar as minhas amigas, não fazer desfeita para elas. Eu não trato os amigos dele assim, sempre sou educada e tudo o mais. Ele simplesmente foi embora.

Eu fiquei com medo e chateada e comecei a chorar. A moça do trailer, que conhece a gente há um tempão, disse que eu era uma boba, que não devia ficar triste e que ele não podia me ver contente nem sorrindo, que sempre queria estragar a minha alegria. E que eu acabava sempre chorando.

Meia hora depois eu liguei de novo, pedindo para ele ir me buscar, tentando não brigar. Assim que entrei no carro, ele começou a falar que tinha homem na mesa onde eu estava sentada com as minhas amigas. E não tinha homem nenhum com a gente, os homens estavam sentados numa mesa lá. Mas a pracinha é pública e eu não posso mandar os homens embora, eu nem estava prestando atenção neles. Ele disse que eu era uma vagabunda e daí para baixo. Assim que chegamos em casa, ele trancou a porta e começamos a discutir. Ele me chutou, bateu e me deu socos. A minha mão ficou toda roxa e inchada, e tive uma luxação no ombro.

Ele partiu para cima de mim, me agredindo. Teve uma hora que consegui abrir a janela e gritei. Mas nessas horas ninguém faz nada, ninguém vem ajudar. A vizinha viu quando ele me jogou no chão e foi me chutando, do quarto para a sala. E ele é enorme, dá três de mim. Cada safanão que ele me dá, eu vou parar longe. Teve uma hora em que consegui me levantar, segurei no pescoço dele e ele ficou arranhado.

De repente, ele ligou para os pais e disse: “Pelo amor de Deus, venham para cá senão eu vou acabar batendo nela”. Disse que eu é que tinha começado a bater nele e que ele só estava reagindo. O pais dele chegaram, ficaram comigo e mandaram o Gláucio para a casa deles. Mas não porque eles gostem de mim ou por preocupação, mas porque estavam com medo de eu entrar com uma queixa contra ele.

Eu liguei para o meu irmão, que estava em Cabo Frio, e ele me deu a maior força. Disse para eu denunciar o Gláucio na hora, porque eu poderia ter feito qualquer coisa que ele não tinha o direito de me bater. A minha sogra pegou o telefone e tentou convencer o meu irmão do contrário, que era para ele tirar da minha cabeça a idéia de denunciá-lo.

A família dele sempre foi contra o nosso relacionamento, pelo lado financeiro. Eu sou pobre, a minha família é pobre e eles, se não são ricos, têm condições boas. Eles nunca me deram nada, tudo está no nome dos pais dele, para, no caso da gente se separar, eu não ter direito a nada. O plano de saúde, por exemplo, quem paga é o Gláucio, mas os pais dele é que controlam o uso. Sempre que quero ir ao médico ou levar a minha filha, tenho que pedir a eles. Todos os eletrodomésticos lá de casa são comprados no nome da mãe dele.

Eu não ligo para isso, porque não quero nada dele, não quero dinheiro nem nada. Só quero a minha filha e a minha vida.

Nesse dia da briga, eu fui para a casa da minha tia. A gente veio para a Delegacia da Mulher e passou a noite fora: eu dei queixa, fui fazer o exame de corpo de delito, estive no Instituto Médico Legal e depois no hospital para fazer exames e curativos. Às sete e meia da manhã, quando cheguei na casa da minha mãe, ela me disse que o Gláucio tinha estado lá, naquela manhã. Que ele tinha chorado muito e dito que estava arrependido. Mas que eu estava agressiva demais e que parecia possuída por uma força ruim.

Engraçado isso: ele me espanca e eu é que estava possuída.

À tarde ele voltou lá, acompanhado da minha sogra. Mas desta vez estava totalmente diferente: me xingou de puta para baixo, dizendo que eu era uma vadia, que não tinha nada e que ele ia tirar a minha filha de mim. Ameaçou: se eu pegar você na rua com a nossa filha, se prepara porque eu tiro ela de você na hora.

Eu tenho medo disso. Tenho medo porque o Gláucio tem dinheiro, eu não tenho nada. O juiz pode querer tirar a minha filha de mim e dar para ele. Ainda mais porque todo mundo sabe da história, eu poderia ter testemunhas, mas ninguém quer falar nada. Então não tenho como provar.

O Gláucio não sabe que eu já dei queixa. Ele disse que ia sair de casa e me deixar com a nossa filha lá, mas voltou atrás. Acho que ele quer me deixar louca, para eu sair de casa e perder tudo por abandono de lar. Tenho certeza de que tudo foi arquitetado pelos pais dele, porque ele não tem tanta maldade para articular isso tudo. Ele começou a me pressionar, dizendo que se eu desse queixa ele iria contratar os melhores advogados e eu ia perder a nossa filha.

Por isso eu aceitei voltar para casa, e pensei em retirar a queixa. Mas eu não sou safada, daria tudo para nunca mais ter que olhar na cara dele. É horrível ter que conviver com uma pessoa com quem você não tem a menor consideração. Mas não quero perder a minha filha, e por ela eu faço qualquer coisa. Estou desempregada, não tenho casa e o juiz nunca vai dar a minha filha para mim. Por isso voltei para casa e me humilhei.

Eu sou obrigada a engolir, pelo medo de perder a minha filha, porque infelizmente a Justiça falha para o lado do pobre. Mas eu não vou perder a fé. Vou procurar um emprego, fazer as coisas com calma e, quando estiver tudo arrumado, aí sim me livro dele. Eu sou trabalhadora, pego qualquer serviço que aparecer. Estou pensando em retirar a queixa só para ele não descobrir agora e atrapalhar os meus planos. Mas tenho certeza de que o futuro vai ser melhor, para mim e para a minha filha.”

*Para garantir o anonimato da denunciante, os nomes de todos os personagens deste caso são fictícios.

Se você se encontra em uma situação de violência, estes são os locais onde você pode pedir ajuda:

Delegacias de Mulheres no Estado do Rio de Janeiro

DEAM Legal Centro
Rua Visconde do Rio Branco, 12
Tels.: 3399-3370/ 3371/ 3372/ 3374/ 3376.

DEAM Legal Belford Roxo
Av. Retiro da Imprensa, 800
Tels.: 3399-3530/ 3980/ 3982.

DEAM Caxias
Rua Tenente José Dias, 344, Centro
Tels.: 3399-3710/ 3711/ 2671-7757.

DEAM Nova Iguaçu
Rua Joaquim Sepa, 180, Marco 2
Tel.: 3399-3720/ 3718/ 2667-4121.

DEAM São Gonçalo
Av. Dezoito do Forte, 578, Mutuá
Tels.: 3399-3730/ 3733.

Chapa quente no Borel

passadeiras_borel_08_tratA chapa está esquentando no Morro do Borel, na Tijuca, Zona Norte do Rio. Mulheres da comunidade acabam de colocar em prática o primeiro projeto social criado, elaborado, produzido e estrelado pelas Passadeiras Comunitárias. Reunidas no Grupo Equilibrar, e ocupando uma sala emprestada pela Associação de Moradores, duas passadeiras -selecionadas entre mais de 20 moradoras candidatas – passam toda a roupa de 26 famílias cadastradas. Dois adolescentes, também moradores do Borel, pegam e entregam as roupas na casa dos clientes. Tudo por um preço camarada: R$ 40 por mês.

A originalidade do projeto se justifica pela faixa etária do público-alvo, explica Mônica Santos, 32 anos, presidente do Grupo Equilibrar de Mulheres do Borel. “A maioria esmagadora dos projetos sociais é voltada para jovens ou crianças. As mulheres na faixa dos 35 a 60 anos são sempre esquecidas, e raramente têm uma oportunidade no mercado de trabalho. Ainda mais porque grande parte delas não tem qualificação profissional.”

Sueli, Angela e Idenir da trupe Equilibrar
Sueli, Angela e Idenir da trupe Equilibrar

Além de Mônica, outras cinco mulheres integram a trupe do Equilibrar. São elas: Dulcinéa Oliveira, 42 anos, vice-presidente; Idenir Adriano de Ciles, 58, Presidente do Conselho Fiscal – “Ah é? Eu nem sabia que eu era isso aí!”, sorri ela – Marlete Tavares, 45, supervisora e suplente do Conselho Fiscal; Sueli Domingas, 43, tesoureira, e Angela Callegário, 36, secretária.

“O Passadeiras é diferente porque não foi ninguém de fora que chegou, disse o que a comunidade precisava e jogou um programa aqui. O nosso projeto é de dentro para fora, tanto que vamos até expandir”, resume Angela.

E é verdade: apesar de recém-nascido, o projeto já está despertando o interesse de outras comunidades e de uma rede de lojas de roupas. “A gente está indo aos poucos, mas o objetivo é criar o máximo possível de postos de trabalho. Queremos expandir e buscar parceria com empresas privadas”, diz Mônica.

Sistema de pontos

O serviço funciona através de um sistema de pontos. Após efetuar o cadastro, o cliente define o dia da semana e o horário em que o entregador deve buscar a roupa em sua casa e em que dia deve entregá-la. Em seguida ele recebe uma tabela com as pontuações para cada tipo de roupa, podendo chegar até 50 pontos semanais. Uma camisa social de manga longa equivale a 3 pontos; uma camiseta de malha, 1,5 ponto e um vestido simples, 2 pontos. Já um terno soma 10 pontos e uma cortina, o item mais caro da tabela, 20.

Monica: luta por trabalho
Monica: luta por trabalho

“As roupas são entregues no dia seguinte, no máximo dois dias depois. As peças vão ensacadas e penduradas. É barato em relação ao mercado, já que uma diarista cobra em média R$ 50 para passar roupa durante um dia inteiro”, explica Angela.

O projeto funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h. As passadeiras trabalham em horário integral, e os entregadores são adolescentes que cumprem meio expediente. “Por isso tem que ser um menino que conheça bem a comunidade, para ir atrás de referências informais”, diz Angela.

Segundo a agente comunitária de saúde Lourdes Maria da Conceição, o serviço das Passadeiras Comunitárias facilitou totalmente a sua vida. “Nunca tive tempo para arrumar as roupas de toda família. Mas desde que passei a ser cliente das Passadeiras, consegui arrumar o armário de todos aqui em casa em três semanas”, comemora.

Para Lourdes, o serviço deveria ser ampliado. “Elas deveriam começar a costurar também”, comenta. Ela acredita que o projeto está dando muito certo e deve continuar. “Além de gerar empregos para os adolescentes do Borel, o serviço é de primeiro mundo e é cobrado um preço muito acessível”, diz Lourdes.

Machismo foi combustível

Os caminhos dessa mulherada não se cruzaram à toa: todas elas eram ligadas, de uma forma ou de outra, à liderança comunitária do morro. Em maio de 2002, a Associação de Moradores estava em polvorosa: três chapas disputavam as eleições para o mandato seguinte. Em uma das concorrentes, o candidato a presidente era Jonas Gonçalves, marido de Sueli. “Algumas mulheres se juntaram para ajudar na campanha da chapa do Jonas. Outras já faziam parte da Associação. Mas todas estavam interessadas no bem-estar da comunidade”, explica Angela.

Angela presa pela qualidade do serviço
Angela presa pela qualidade do serviço

“A gente queria chacoalhar aquilo lá, arregaçar as mangas. Mas tivemos dificuldades por causa do machismo”, explicita Mônica. Enquanto a chapa de Jonas ganhava as eleições, as mulheres resolveram unir forças e partir em busca de um espaço próprio. As prioridades foram definidas por elas e por mais ninguém.

Na teoria a iniciativa era sensacional, mas, na prática, o mundo não era tão cor-de-rosa assim. As intenções eram as melhores, e força de vontade não faltava. Mas ninguém sabia por onde começar. “Foi quando a Ademilza, que era candidata à presidência do Conselho Fiscal, nos falou sobre o curso do Cieds”, explica Idenir.

No curso do Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável (Cieds), o grupo recebeu lições de empreendedorismo social, elaboração de projetos e gestão social. O desafio seguinte era dar forma a um projeto que fosse capaz de atender a várias necessidades de uma só vez: além de gerar renda para dentro da comunidade, teria que criar postos de trabalho, ter possibilidade de expansão e atender às necessidades das mulheres desempregadas. “A cada 15 famílias cadastradas, cria-se um posto de trabalho para mais um adolescente e uma passadeira. Por isso dependemos da qualidade do nosso serviço”, explica Angela.

O projeto dos sonhos do Equilibrar teria ainda que criar serviços para a própria comunidade. “Muitas moradoras do Borel trabalham fora, ou passam o dia inteiro limpando a casa dos outros e não têm tempo para cuidar das próprias roupas”, diz Mônica. Um projeto de mulher para mulher: a idéia de criar o Passadeiras Comunitárias surgiu dentro de um ônibus, enquanto o grupo se dirigia para mais um dia de aulas. “A gente estava conversando, pensando em mulher, facilidades para mulher, mulher, mulher… Aí, de repente, surgiu um estalo. Nós praticamente parimos o projeto”, diverte-se Angela.

Além do ideal, um incentivo a mais fez com que o grupo Equilibrar se agarrasse com unhas e dentes ao Cieds: no final do curso, os três melhores projetos desenvolvidos pelos alunos ganhariam uma verba do Ministério da Justiça, para custear a saída do papel. “A gente mergulhou de cabeça. Tinha dias que saíamos de lá depois de meia-noite, estudando e montando o projeto”, conta Sueli.

O empenho deu resultados. Em meio a projetos de todo o Rio de Janeiro – “tinha grupos da Tijuca, de Copacabana, de Niterói, de Caxias, de Santa Cruz e muito mais”, lembra Idenir – o grupo Equilibrar conseguiu a terceira colocação. E ganhou uma verba de R$ 2,5 mil.

Celeiro de investimentos

Sueli e Maria se ajudam no trabalho
Sueli e Maria se ajudam no trabalho

Com o micro crédito, elas conseguiram viabilizar o Passadeiras Comunitárias. Uma parceria com a associação de moradores garantiu o espaço, um ambulatório dentário que não funcionava. “A gente quase teve que arrancar essa sala do Jonas, o marido da Sueli. Só faltou bater nele”, brinca Idenir.

Parte do dinheiro foi usado na pintura da sede e numa pequena reforma, com mudança de instalação elétrica, ventiladores de teto e araras para as roupas. A mão-de-obra foi de graça, uma colaboração dos maridos das integrantes. O restante do dinheiro foi gasto em divulgação, compra de material – como ferro de passar, amaciantes, sacos plásticos, tábuas de passar e extintor de incêndio – e uma quantia separada para garantir o salário das passadeiras durante dois meses.

Quem não recebe nem um tostão pelo trabalho são as integrantes do Equilibrar. Todas são voluntárias no projeto, até o dia em que o Passadeiras Comunitárias possa caminhar com as próprias pernas – e elas possam receber um salário por seus cargos. A sobrevivência é assegurada através de trabalhos fora da comunidade. Mônica é radialista; Idenir é costureira; Sueli é auxiliar administrativa; Dulcinéa é doméstica; Marlete faz transporte escolar e Angela é professora, mas está desempregada desde que a creche em que trabalhava fechou.

A verba já está quase no fim, e por isso o Equilibrar está em busca de novas parcerias. “Nós mandamos o projeto para as ONGs Brazil Foundation, Angela Borba e para o Fundo Carioca. Buscamos financiamento só para engrenar, porque depois o projeto é auto-sustentável”, diz Angela.

O salário mínimo também não enche os olhos das passadeiras. Mas a fé no projeto é intensa e a esperança é o que mantém D. Sueli de Souza, 58 anos, passando roupa o dia todo. “Eu não pretendo sair porque acredito que vai dar certo, vai crescer e aí o salário pode melhorar. A gente faz o que pode, capricha no serviço. Ainda mais porque é para o pessoal da nossa comunidade”, sorri ela.

Maria espera melhorias
Maria espera melhorias

Já Maria Helena Rodrigues, de 47 anos, não é tão otimista. Mostrando as pernas inchadas pelo esforço de ficar em pé o dia inteiro, ela diz que gosta muito do projeto, acha a idéia maravilhosa, mas que as condições financeiras têm que melhorar, e logo. “A gente não tem carteira assinada, não tem benefícios. Descontando tudo o que gasto, acaba que ganho R$ 170 por mês, e hoje em dia isto não dá para nada. Espero que a gente consiga um vale transporte, uma cesta básica ou um aumento no salário. Qualquer coisa já valeria a pena”, afirma ela, que ainda vende quentinhas nas horas vagas.

Meta é chegar ao asfalto

Se depender da força de idéias e força de vontade das mulheres do Equilibrar, Maria Helena vai continuar no projeto até o fim dos tempos. Elas têm planos de formar parcerias, atuar em várias frentes, batalhar por melhorias dentro do Passadeiras e até aprofundar o acompanhamento dos adolescentes.

Os entregadores recebem ajuda de custo de meio salário mínimo, mas o objetivo é acompanhar também a família dos jovens e a evolução escolar. “O importante é acabar com a ociosidade, para afastá-los de caminhos errados. Seria bom também se pudéssemos contribuir com uma cesta básica por mês para a família”, diz Angela.

Já na parte de expansão, o grupo aposta as fichas em três caminhos. Um deles é levar o projeto a outras comunidades. O primeiro contato já está sendo feito, com o pessoal do Morro dos Macacos, no Jardim Botânico, Zona Sul do Rio. O Equilibrar entraria com o conhecimento e capacitação de pessoal, e em troca receberia uma porcentagem, ainda não estipulada, do lucro. “É um processo ainda em construção, não sabemos direito como vai ser. Mas já tem muita comunidade interessada, até uma em Queimados”, conta a secretária.

Outro caminho será o de transformar as passadeiras em oficineiras, e permanecer capacitando profissionalmente as mulheres que se interessarem. “Assim, as 17 que não passaram na nossa seleção, por exemplo, poderiam estar aprendendo. E, no futuro, poderiam repassar o conhecimento a outras pessoas”, diz Idenir. Esta seria a forma de poder fechar contrato com a empresa Leader Magazine, que se interessou em contratar os serviços das Passadeiras.

Por fim, o objetivo é, no futuro, levar o serviço para o asfalto. Os primeiros a serem beneficiados serão os condomínios da Rua Conde de Bonfim, na Tijuca. “As pessoas de classe média não querem mandar suas roupas para a favela, têm medo, preconceito. Mas não tem problema: a nossa idéia é capacitar várias mulheres e poder mandar uma passadeira até a casa do cliente”, diz Angela. Ou seja: se o cliente não vai até a favela, a favela vai até ele.

Dormindo com o inimigo

dormindo_inimigo_04_tratTexto Gilson Jorge
Fotos Sandra Delgado

Se no estado da Bahia os números da violência contra a mulher são alarmantes, em locais pobres e isolados, como no Conde, município a 100 quilômetros de Salvador e com 18 mil habitantes, a ocorrência de assassinatos brutais e mutilações de mulheres acusadas de traição está banalizada. O paradisíaco município do litoral norte baiano esconde em seus vilarejos inúmeras histórias de violência extrema contra mulheres, que são toleradas por praticamente toda a cidade.

Mesmo as mulheres vítimas da crueldade dos parceiros deixam claro que aceitam como justo o castigo, desde que se considerem realmente culpadas. Essa, aliás, é a maior queixa de Dona Margarida, 29 anos (nome fictício). “Se eu tivesse feito alguma coisa, tudo bem. Mas eu nunca o traí”, assinala a mulher, que teve parte de uma de suas orelhas decepada há 11 anos, por conta de ciúmes, depois de uma longa discussão em que ela tentava provar sua fidelidade.

Dona Margarida foi mutilada: “Eu não merecia, não fiz nada”
Dona Margarida foi mutilada: “Eu não merecia, não fiz nada”

Mais do que o pedaço do corpo, o marido arrancou-lhe a auto-estima. A dona-de-casa esconde com um lenço amarrado à cabeça a parte amputada e também o brilho que trazia dentro de si antes de ser mutilada. “Eu era uma mulher vistosa, agora sou isso”, sentencia enquanto prepara o almoço.

Margarida prepara comida para os seis filhos
Margarida prepara comida para os seis filhos

Rosângela Santos, 29 anos, foi vítima de um ex-namorado, que já havia cometido outros crimes na região. No ano passado, em um dos comícios para as eleições municipais, Rosângela se engraçou com um forasteiro. Na volta para casa, o ex-namorado a seguiu, dizendo que queria conversar e a esfaqueou até a morte.

Casa de Rosângela, vítima fatal, completamente vazia
Casa de Rosângela, vítima fatal, completamente vazia

Há alguns anos Dona Flor, 38 anos, foi parar no Hospital Geral do Estado, em Salvador, para um atendimento de emergência após receber um tiro na cabeça, desferido pelo parceiro. Como muitos homens na cidade, ele tem duas amantes e exige fidelidade das duas. Dona Flor garante que nunca o traiu, mas sua lealdade ao homem que a visita esporadicamente em busca de sexo não impediu que ele quase a matasse. Apesar dos hematomas no corpo e da marca deixada pela bala na cabeça, Dona Flor não pensa em denunciar o agressor à polícia. “Você sabe, né? Eu não gosto de fazer mal a ninguém”, responde meio sem jeito.

Flor:”Não gosto de fazer mal a ninguém”
Flor:”Não gosto de fazer mal a ninguém”

O casamento de Nice dos Santos, 57 anos, hoje se resume a uma foto velha e rasgada que ela guarda meio por insistência das filhas. A união carnal com o marido acabou no dia em quase aconteceu uma tragédia familiar. Seu companheiro pediu que ela lhe preparasse um suco de laranja. Ela foi até a cozinha e fez o que havia pedido. Quando voltava para a sala com o copo na mão, foi surpreendida com a imagem do marido vindo em sua direção com uma faca, gritando que queria sangue. Dona Nice defendeu-se com as mãos e o ataque rendeu três dedos quebrados e a impossibilidade de exercer alguns trabalhos manuais.

Nice: mãos aleijadas seguram foto do casamento
Nice: mãos aleijadas seguram foto do casamento

As agressões a mulheres não se limitam a casamentos e relacionamentos estáveis. A jovem Rosa levou um soco no rosto, pelo simples fato de ter se recusado a ficar com um garoto. Mas ela, hoje grávida do atual namorado, já passou por coisa pior. Uma noite, quando voltava da escola foi abordada por um grupo de rapazes que queriam currá-la. “Eram uns dez”, calcula sem muita certeza. Ela conseguiu correr e se esconder na casa da mãe de uma amiga.

Rosa conseguiu correr e evitar o estupro
Rosa conseguiu correr e evitar o estupro

Ainda hoje seu Abelardo Ventura chora quando lembra o crime que cometeu há 17 anos. A resistência inicial em falar no assunto vai sendo alimentada com a desculpa de que isso aconteceu há muito tempo e que tudo já foi dito. “Eu não quero falar disso, é sofrer várias vezes”, declara seu Bebé que antes de terminar a frase cai em choro compulsivo. Inicialmente, ele reclama da sorte que teve, da vida que leva. Depois de cumprir pena de oito anos e meio por homicídio, ele só conseguiu trabalho no matadouro da cidade. Solitário e na penúria, chora pelas conseqüências do seu crime. Mas pela mulher que matou brutalmente não derrama uma lágrima. “Alguma coisa ela fez para merecer o que eu fiz”, assinala.

Seu Abelardo dorme em cubículo no matadouro onde trabalha
Seu Abelardo dorme em cubículo no matadouro onde trabalha

Trechos da reportagem publicada no jornal Província da Bahia, número 13, em 10 de julho de 2001.

Sandra Delgado é jornalista, formada pela Universidade Federal da Bahia (1998), pós-graduada em Fotografia como Instrumento de Pesquisa nas Ciências Sociais pela Universidade Candido Mendes – RJ(2003). Começou sua carreira como assistente do fotógrafo Mario Cravo Neto, atualmente é fotógrafa e subeditora de fotografia do Portal Viva Favela.

Nos bastidores da vida

vila_mimosa_011_trat“Tem que se cuidar. Use camisinha” . Esta é a frase mais repetida por Cleide Nascimento de Almeida, 39 anos, para as meninas da mais tradicional zona de prostituição do Rio de Janeiro. Apesar da convivência de anos e de defender com garra os interesses das prostitutas, ela nunca foi profissional do sexo. “Minha mãe teve dez filhos e não precisou se prostituir para sobreviver. Eu, que não tive nenhum, não tinha motivo para me tornar garota de programa”, diz a coordenadora de projetos de DST/ Aids da Associação dos Moradores, Condomínios e Amigos da Vila Mimosa (Amocavim).

A relação de Cleide com a Vila Mimosa começou através da mãe, que trabalhava na zona como comerciante, vendendo salgados e bebidas. “Eu comecei a trabalhar com ela e vi que o negócio era lucrativo. É engraçado pensar na minha mãe trabalhando na vila porque ela é super moralista” , diverte-se.

Quando a vila mudou para o atual endereço na Praça da Bandeira (Zona Norte do Rio), Cleide ajudou a organizar o novo espaço e acabou comprando uma das casas. “Eu me tornei gerente de casa e as meninas trabalhavam nela. Mas hoje a casa é alugada. Eu só trabalho na associação e faço faculdade de Serviço Social na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)”, conta.

Em média duas vezes por mês, a Amocavim realiza, dentro da Vila, palestras sobre doenças sexualmente transmissíveis e Aids, com exibição de vídeos e distribuição de folders e panfletos informativos. “Além de palestras com especialistas, já teve aqui oficina sobre camisinha”, conta, orgulhosa.

Uma parceria com o Ministério da Saúde resultou na abertura de um posto médico ao lado da Vila e na distribuição de preservativos a cada 15 dias. Alessandra Camilo, de 22 anos, resume o que aprendeu nas palestras: “Para mim o engraçado é quando o cara quer transar comigo sem camisinha. Aí, não tem como, amigo, não rola. E eu vou vender minha vida por vinte reais?”

Palestra sobre DST/Aids: camisinha feminina (E) ainda é novidade
Palestra sobre DST/Aids: camisinha feminina (E) ainda é novidade

Segundo Andréia do Nascimento, 26 anos, irmã e assistente de Cleide, a idéia da campanha surgiu em 1996, quando foram constatados cinco casos de Aids entre as prostitutas. “Antes dos projetos de saúde chegarem aqui, elas tinham que comprar os preservativos, e às vezes não tinham dinheiro. Hoje, além de ganharem, são muito bem informadas e só pegam alguma doença se quiserem”, afirma. Há mais de cinco anos não são constatados casos de Aids na Vila. E neste ano, o único registro de doença foi de uma prostituta vítima de tuberculose, que já está curada.

O próximo passo de Cleide é travar uma batalha contra a prostituição infantil, e fiscalizar as casas para manter fora da zona meninas com menos de 18 anos. “Eu sei que é uma batalha difícil, mas eu vou entrar de cabeça e me esforçar por esta causa”, garante.

Cartão postal secreto

vila_mimosa_11_tratQuase todo mundo já ouviu falar nela no Rio de Janeiro, mas a maioria das mulheres nunca teve coragem ou oportunidade de conferir. Atire a primeira pedra quem nunca teve curiosidade de conhecer a Vila Mimosa, a histórica zona de prostituição da cidade. Com mais de 80 anos de existência e atraindo mil visitantes por dia, a zona está longe de envelhecer e já entrou na Era de Informática: há um ano e meio, estreou na Internet o site da Vila Mimosa, auto-intitulado o “cartão postal secreto” do Rio.

No site, bem comportado para os padrões da Vila, o internauta encontra a história da zona, um mapa de localização, fotos da década de 70 e atuais, e também das meninas em sessões de bronzeamento artificial e numa academia. Segundo a M2BR, empresa que criou e hospeda o site, a média ainda é de 15 mil visitas por dia, sendo 30% dos acessos vindos do exterior.

Tanta curiosidade não é para menos. Com uma receita bombástica, que mistura boemia, sexualidade e proibição, a Vila Mimosa já recebeu clientes célebres – entre eles o poeta Manuel Bandeira, descrito no site como um dos mais assíduos freqüentadores – e também foi muito perseguida. Após duas mudanças de endereço por ordens do governo, ela funciona hoje na Rua Sotero dos Reis, pertinho da Praça da Bandeira (Zona Norte do Rio).

E é muita mulher junta. Para se ter uma idéia, ninguém sabe ao certo o número de prostitutas que trabalham na vila. O rodízio de meninas é muito grande. Tem umas que trabalham só de dia e outras só à noite.

“É impossível contar, porque a cada dia umas vão embora e outras novatas chegam. Só sei que são muitas”, diz Cleide Nascimento de Almeida, 39 anos, que tem um título bem comprido: é coordenadora de projetos de DST/ Aids da Associação dos Moradores, Condomínios e Amigos da Vila Mimosa (Amocavim). Cleide conta que a mesma dificuldade de contagem acontece em relação ao número de visitantes. “Tem dias em que passam mais de dois mil homens por aqui”, afirma.

A cara da vila

Para visualizar o lugar, imagine uma vila com casas bem ao estilo dos subúrbios cariocas. Agora coloque ruas bem estreitas, onde não passariam um carro. Em cada imóvel de dois andares, em vez de uma porta, um portão aberto com um bar e luz em neon vermelho ou azul atrás do balcão. E agora coloque um teto de zinco em todas as construções. Esta é a Vila Mimosa, composta por 70 sobrados, uns colados aos outros e com corredores cobertos, formando uma edificação parecida com um shopping: quando se está lá, não dá para ver o céu. Não se sabe se é noite ou dia, se chove ou faz sol.

Vila de bares e boates atrai mais de mil visitantes por dia
Vila de bares e boates atrai mais de mil visitantes por dia

No primeiro andar ficam os inferninhos: bares e pequenas discotecas com 30 metros quadrados, em média. Nos andares superiores estão os cômodos, onde os clientes são atendidos. Em geral, cada casa possui 10 quartinhos.

Por tradição, não é permitido que travestis ou garotos de programa trabalhem na vila. A rua é barulhenta, cheia de gente e efervescente, e lembra o burburinho da Rua da Alfândega, ponto comercial bastante popular do Rio. São mulheres dançando, caminhando languidamente, ou paradas, conversando com clientes. Elas estão sempre seminuas, com lingeries ousadas ou microshorts cavados. Muitas se enfeitam e usam maquiagem, saltos altos e roupas elaboradas. Outras, poucas, não ligam para o visual e parecem entediadas ou forçadas a cumprir uma rotina indesejada.

A Vila não tem horário de funcionamento: o movimento é 24 horas por dia, sem parar. Não existem folgas, feriados, férias ou dias santos. “Os clientes aparecem o tempo inteiro. Tem gente que só pode vir de manhã, outros à tarde, à noite, de madrugada, a qualquer hora”, conta Cleide. No meio da confusão de meretrizes e clientes, se encontram turistas e curiosos, misturados a ambulantes vendendo doces, balas, bijuterias, maquiagem e roupas.

Casa e batalha

Alessandra: futuro do filho
Alessandra: futuro do filho

Além de local de trabalho, a vila serve de moradia para muitas garotas. Geralmente o motivo é evitar deslocamentos: a distância entre a residência e a “zona”, como elas mesmas chamam, costuma ser grande. Alessandra Camilo, de 22 anos, mora e trabalha na vila de terça a sábado. De domingo a segunda, volta para casa na comunidade Fazendinha, em Inhaúma, para ficar com o filho Eduardo, de 4 anos. “Quando estou na vila deixo o meu filho com uma senhora que cuida dele, já que o pai não ajuda em nada. Trabalho aqui para dar um futuro melhor para o Eduardo”, conta.

Antes de ir para lá, Alessandra não tinha emprego. Semi-analfabeta, estudou apenas até a segunda série do ensino fundamental, e tem dificuldades para assinar o nome. Era sustentada pela mãe, que fazia abortos clandestinos, até conhecer o pai de Eduardo, com quem foi morar. Há um ano a mãe morreu e Alessandra já tinha se separado do pai de Eduardo. “Das poucas vezes em que consegui trabalho, não me pagavam nem um salário mínimo. Eu não tinha como sustentar o meu filho só com aquilo. Aqui chego a ganhar mais do que isso por semana”, justifica.

O dinheiro também foi o que motivou a ida de Elaine Félix dos Santos, 19 anos, para a prostituição. Moradora de Belford Roxo, na Biaxada Fluminense, ela trabalhava como doméstica. Com sete irmãos, precisava de uma renda melhor para ajudar a mãe, e foi parar na zona aos 16 anos. Como Alessandra, ela também só estudou até a 2ª série.

Elaine: Viver aqui é horrível.
Elaine: Viver aqui é horrível.

Elaine diz que quer sair da prostituição um dia, e não tem boas histórias para contar. A lembrança mais recente é a de um cliente que, em meados de agosto, apontou-lhe uma arma para o rosto porque ela não quis fazer um programa com ele. “O pessoal separou, os seguranças tiraram ele daqui, mas eu fiquei com muito pavor. Pode ser que um dia aconteça de verdade, que não dê tempo. Viver aqui é horrível”, desabafa.

Na hora da segurança, tanto as prostitutas quanto Cleide fazem questão de ressaltar a diferença dos gerentes de casas da vila para os gigolôs e cafetinas comuns. Todas garantem que as profissionais do sexo são livres para escolher se querem ou não fazer um programa, se vão ou não fazer um serviço com um determinado cliente, além de cada uma trabalhar apenas quando quer.

“Ninguém me obriga a nada. Só a polícia daqui que entra armada ameaçando a gente, e querendo programa de graça. Aí eles maltratam os gerentes também”, denuncia Alessandra.

Mas a convivência entre prostitutas e gerentes, segundo elas, é amigável. Os proprietários se associam às meninas: elas oferecem uma certa “fidelidade” à casa, e recebem em troca segurança, descontos no aluguel dos quartinhos e as próprias acomodações. Para os donos, quanto mais mulheres o local tiver para oferecer, e mais bonitas, mais clientes para beber e comer nos bares. Além disso, os gerentes alugam os quartinhos por R$ 5 por programa.

Jessica: Vila é o sustento e a diversão
Jessica: Vila é o sustento e a diversão

Muita inveja

As opiniões sobre a vida na vila divergem bastante. Para Alessandra, o dia-a-dia na zona é sofrido. “A gente tem que aturar muito homem abusado, violência e morte. Não existe união entre as garotas, rola muita inveja. Se eu tivesse outra oportunidade de trabalho, sairia”, desabafa. Alessandra cobra R$ 20 por um programa de 20 minutos. Segundo ela, o lucro por semana varia de R$ 350 a R$ 400.

Já para Jessica, 20, que “batalha” na vila há 1 ano e meio, o clima de trabalho é muito divertido. “Tenho muitas amizades e aqui eu consigo me distrair. É bem legal”, afirma. Mãe de Iago Gabriel, de 8 meses, ela trabalha na vila de segunda a sexta. O bebê fica com a avó, em Nova Iguaçu. Jessica não esconde a profissão de ninguém: “Toda a minha família sabe. E eu dou graças a Deus por ter um trabalho, poder me sustentar e não passar fome”.

Independentemente das frustrações, as prostitutas também amam e a maioria já viveu seu dia de “uma linda mulher”, como na história protagonizada pela atriz Julia Roberts no cinema. Quando o assunto é amor, o comentário é praticamente o mesmo: muitas já se apaixonaram por um cliente.

Vera se apaixonou por cliente
Vera se apaixonou por cliente

A prostituta Vera, 24, que trabalha há dois anos na vila, conta que mantém um relacionamento de pouco mais de um ano com um empresário que conheceu no trabalho. “Ele até paga o meu aluguel. Minha mãe adora ele e a minha filha mais velha chama ele de pai. Eu sou apaixonada, ele é o homem da minha vida”, suspira. Ao mesmo tempo, o amor não significa aposentadoria da prostituição. “A gente se gosta mas ele é casado, então cada um leva a sua vida. Estamos bem assim”, resume.

Alessandra conta que também manteve um relacionamento de sete meses com um cliente paulista. Segundo ela, o namorado a convidou para morar em São Paulo, mas ela não aceitou. “Eu estava cheia de problemas com os documentos do meu filho, e por isso não tive como ir. Mas eu amava ele”, simplifica.

A Vila e sua história

Não há uma data oficial para o surgimento da vila, mas sabe-se que aconteceu na primeira década do século passado e funcionava na Rua Pinto de Azevedo, no bairro do Mangue, no Estácio (Zona Norte). Demolida pela Prefeitura, que construiu um centro administrativo no local, a vila se mudou para a rua Miguel de Frias, no mesmo bairro, já nos anos 1920. E lá permaneceu por 75 anos.

Em 1994, o Estado tombou o antigo prédio da TV Rio, vizinho da Vila. E aí começou uma batalha judicial que culminou, no ano seguinte, com a transferência para o atual endereço.

Com a chegada das garotas, algumas famílias que já moravam na região se sentiram incomodadas. Há relatos de que algumas prostituas chegaram a ser agredidas físicamente. Foi aí que surgiu a Amocavim, cujo objetivo é colocar ordem na casa, oferecendo segurança para as pessoas que trabalham e freqüentam a Vila Mimosa.

Cleide luta por condições melhores
Cleide luta por condições melhores
A iniciativa já transformou em realidade antigos desejos das prostitutas: hoje a zona possui um salão de beleza, uma sala de bronzeamento artificial e um consultório dentário – e está prevista ainda a inauguração de uma agência bancária.

Para comemorar, a associação organizou, no ano passado, a primeira edição do concurso “Gatinha Mimosa”. A idéia era valorizar a auto-estima das meninas, já que as prostitutas geralmente são vaidosas e a aparência conta muitos pontos para o sucesso na profissão.

“Antes de desfilar, a gente foi ao salão de beleza para ser maquiada. Foi muito divertido”, conta Vera, que ficou em terceiro lugar. Em outubro, a Amocavim promete inovar e realizar também o concurso Beleza Negra. E mais: como associação, a Amocavim conquistou a possibilidade de diálogo e um certo respeito no tratamento com a prefeitura e a polícia.

Leia mais: Nos bastidores da vida

Inimigo Oculto

virus_hpv_03_tratFaça uma lista das 8 mulheres que são mais próximas a você. Provavelmente, no mínimo duas delas estão infectadas pelo Papilomavírus Humano, o HPV. Os dados são do Instituto Nacional do Câncer (Inca): no Brasil, 25% das mulheres, principalmente as mais jovens, são infectadas por um ou mais tipos do vírus. E mais: hoje, sabe-se que o HPV é o responsável por 99% dos casos de câncer de colo do útero – doença que mata anualmente 4 mil brasileiras.

Apesar dos índices um tanto alarmantes, nada de pânico. Nem todas as pessoas que entram em contato com o HPV desenvolvem qualquer espécie de doença, pois, na maioria dos casos, o sistema imunológico humano consegue combater o vírus e eliminá-lo totalmente. Dentre o total de mulheres infectadas, estima-se que apenas 3% desenvolvam câncer. E não porque não haja cura – mas simplesmente porque muitas pacientes não têm o hábito de ir ao ginecologista, nem fazer exames de rotina.

Este foi o caso de Raquel*, estudante de 20 anos, moradora da Rocinha. Ela iniciou sua vida sexual aos 15 anos, depois de 8 meses com o primeiro namorado – um menino da mesma idade, que não era mais virgem. “A gente queria que fosse perfeito, romântico, como eu sonhava. Então planejamos tudo com calma. Ele não sabia que tinha HPV porque não tinha nenhum sintoma. E eu peguei com ele, na minha primeira vez”, conta ela.

Eles ficaram juntos por mais quatro meses. Neste meio tempo, Raquel já sentia alterações na vagina: um corrimento que não parava e muita coceira. Assustada e com medo, ela pediu à mãe para ir ao médico. Foi apenas no consultório que a mãe descobriu que Raquel não era mais virgem. “Ela não ficou muito preocupada com a doença. O problema para ela era saber se eu estava tomando pílula, porque não quer que eu tenha filhos jovem. Mas o médico só passou um creme, e ninguém sabia que já era o HPV agindo no meu corpo”.

O caso de Raquel joga por terra o preconceito de que o portador de uma Doença Sexualmente Transmissível tenha necessariamente um comportamento promíscuo. Até mesmo um jovem que esteja na primeira relação sexual, mantendo um relacionamento estável, com um parceiro fixo, pode contrair o vírus. “Tudo depende do sistema imunológico da pessoa, das defesas do próprio organismo”, afirma o Dr. Maurício Costa, Mestre e Doutor em Ginecologia pela UFRJ.

O que é

O Papiloma é um vírus transmitido principalmente através de relações sexuais, que atinge mais a área genital de homens e mulheres, apesar de se desenvolver com mais freqüência no sexo feminino. Universal, manifesta-se em negros e brancos, americanos e europeus, brasileiros e chineses, ricos e pobres, sem distinções. No Brasil, o caso mais famoso é o da apresentadora Ana Maria Braga, que assumiu publicamente ter um câncer anal – provocado por um tipo raro de HPV – em novembro de 2001.

“O HPV é um vírus muito antigo e sua presença realmente vem aumentando nos últimos anos. Isto começou com a revolução sexual. As pessoas ganharam liberdade, mas deixaram de se cuidar”, diz o Dr. Maurício.

Conhecidas desde a antigüidade, as infecções genitais pelo HPV chamaram atenção a partir da década de 80, quando se descobriu a relação das lesões com o câncer de colo do útero. Até o momento, mais de 100 subtipos do vírus já foram identificados. O mais comum é o que atinge a região genital. Outros subtipos causam apenas verrugas comuns no corpo. Em casos mais raros, o vírus já foi detectado em locais como: olhos, boca, faringe, vias respiratórias, ânus, reto e uretra.

Ainda não existe nenhuma vacina contra o HPV, ou seja, não há cura para a contaminação pelo vírus. Mas existem inúmeras formas de tratamento e acompanhamento dos sintomas, e quem se cuida pode conviver pacificamente com o Papiloma, levando uma vida absolutamente normal.

Mal Escondido

Vale ficar atenta, pois uma das características do HPV é que ele pode ficar instalado no corpo por muito tempo sem se manifestar, entrando em ação em determinadas situações, como na gravidez ou numa fase de estresse, quando a defesa do organismo fica abalada.

Homens e mulheres tanto podem sentir uma leve coceira, ter dor durante a relação sexual ou notar o aparecimento de uma secreção, mas é comum que não se note qualquer alteração. Isto significa que qualquer pessoa pode estar infectada pelo vírus, sem saber. E se esta pessoa transar sem camisinha, fatalmente o parceiro será infectado pelo HPV. “O vírus é transmitido mesmo fora da crise, ou seja, mesmo quando está incubado. E este pode ser um dos motivos deste intenso alastramento do HPV”, diz o Dr. Maurício.

Além disso, muitas vezes os sintomas do HPV são tratados não como conseqüências da ação do vírus, mas como uma doença secundária. Por exemplo: por causa da ação do HPV, uma paciente apresenta uma inflamação no colo do útero. Existem médicos que não associam uma coisa à outra e acabam tratando apenas a infecção. E o HPV continua lá, passando desapercebido, e agindo livremente.

Portanto, a melhor forma de tratamento é a informação. O ideal é que você se previna contra o vírus, mantendo em dia os cuidados de higiene, reduzindo o número de parceiros sexuais e, principalmente, usando sempre preservativos, mesmo em relações estáveis. É fundamental também que você faça ao menos um preventivo por ano.

HPV na gravidez

O vírus HPV não causa infertilidade
O vírus HPV não causa infertilidade

Em raras situações, foi encontrada a presença do HPV no líquido amniótico (líquido que envolve o feto dentro do útero). A secretária Márcia*, de 24 anos, também moradora da Rocinha, só descobriu a presença do vírus ao fazer exames de rotina, durante a gravidez do filho João*, de 2 anos e 8 meses. “Fiquei apavorada. Meu maior medo era de aquilo causar algum problema para o meu bebê. E da doença se transformar num câncer, pois o meu caso já estava um pouco avançado”, conta.

Hoje, João é um menino esperto e saudável. A presença do vírus não causou nenhum problema, apenas tornou-se ainda mais necessário um bom acompanhamento médico pré-natal. “A presença do HPV durante a gravidez não implica em má formação do feto, nem que a mãe não poderá optar pelo aprto normal. Não se deve especular, cada caso é um caso”, diz o Dr. Maurício.

A experiência de Raquel foi ainda pior. Ao descobrir que era portadora do vírus, com apenas 17 anos, através de um preventivo, ela teve que ouvir absurdos de uma médica inconseqüente, ignorante e preconceituosa. “Ela me disse que quando eu quisesse criar uma família eu não ia poder, por causa desse problema que eu tinha arranjado na rua. Que eu não poderia ter filhos e que a culpa de tudo era minha.” Isto é uma mentira: o HPV não causa infertilidade. E qualquer mulher, portadora ou não do HPV, pode e deve ser amada, respeitada e ter uma vida absolutamente normal.

Prevenção e tratamento

O indício mais claro da presença do HPV é o aparecimento de verrugas em áreas como ânus, pênis, vulva e vagina. Se você perceber algo parecido, procure um ginecologista. Se as verrugas aparecerem no órgão do seu parceiro, mande-o direto para o consultório de um andrologista, que é o médico especializado nos órgãos sexuais masculinos, ou de um urologista, especialista em vias urinárias. E lembre-se: é fundamental que o seu parceiro seja informado sobre o vírus. Se apenas você se tratar, poderá ser reinfectada por ele, e vice-versa. O ideal é que vocês dois se informem sobre o assunto e sigam o tratamento ao mesmo tempo.

O diagnóstico pode ser feito através de um preventivo comum, conhecido como Papanicolao: o médico retira uma pequena quantidade de secreção da vagina da paciente e coloca-o numa lâmina de vidro, que é enviada para um laboratório para análise ao microscópio.

Se o resultado for positivo para a presença do vírus, não se desespere. Nem todos os tipos de HPV podem se transformar em câncer. Por isso, os Papilomavírus são classificados em tipos de baixo e de alto risco. Outros fatores que podem aumentar o potencial de desenvolvimento do câncer de colo de útero em mulheres já infectadas pelo HPV são o uso indiscriminado de pílulas anticoncepcionais, o fumo e infecções por outras doenças sexualmente transmissíveis.

Atendimento Público

Mesmo sabendo que é fundamental que os serviços de saúde orientem sobre o que é e qual a importância do exame preventivo – dados do Inca comprovam que a realização periódica do exame permite reduzir em 70% a mortalidade por câncer do colo do útero – o Dr. Afrânio Coelho de Oliveira, médico da Gerência de Câncer da Secretaria Municipal de Saúde, afirma que não há motivo para um programa de saúde pública específico sobre o HPV.

Segundo Oliveira, as mulheres devem procurar os serviços prestados pelo programa federal Viva Mulher existente nos postos médicos, que oferecem atendimento ginecológico. “Nestas unidades, as mulheres têm o direito de fazer o Papanicolao gratuitamente. Por meio deste exame, já é possível diagnosticar se a cliente apresenta HPV e, assim, dar início ao tratamento”, afirma.

De acordo com o site da secretaria, a rede pública municipal dispõe de 71 unidades de saúde na cidade do Rio que possuem atendimento ginecológico, capazes de fazer gratuitamente o exame. Para informações sobre o vírus, o doutor recomenda que as mulheres busquem orientação nos postos médicos, onde há o Programa da Mulher, desenvolvido pela secretaria. O objetivo do projeto é informar às mulheres sobre como evitar as diferentes Doenças Sexualmente Transmissíveis. “O esclarecimento sobre o HPV está incluído neste programa”, justifica Oliveira.

“Só se isto está acontecendo agora” – diz Raquel – “O Viva Mulher só fala sobre AIDS, só tem informação sobre isso. E eu fui ao posto de saúde da Gávea e o lugar estava todo esculhambado, todo sujo.”

Independente das dificuldades, se empenhe em realizar o Papanicolao anualmente. A saúde é o bem mais importante que você tem, e assistência médica é um direito de todos os brasileiros -garantido inclusive pela Constituição Federal.

* Para manter a identidade das entrevistadas em sigilo, os nomes utilizados na matéria são fictícios.
** Colaborou: Jana Tabak.

Em busca de trabalho

busca_trabalho_011A fotonovela da vida real conta a saga de jovens da Cidade de Deus que se reúnem para buscar trabalho nas agências de modelos.

Entrar no mundo da moda não é fácil para ninguém, ainda mais para jovens que moram em favelas. Até sair da comunidade, elas passam por lugares de urbanização precária, driblam o assédio e a gozação dos desocupados e, muitas vezes, deixam os trabalhos domésticos. Tudo para tentar uma nova chance na vida.

As modelos deste ensaio participam do projeto Lente dos Sonhos e também são moradoras da Cidade de Deus.

Fotos Tony Barros

Maria acorda cedo e põe a melhor roupa…
Maria acorda cedo e põe a melhor roupa…

…e no Jardim da Manhã 2, tenta se equilibrar.
…e no Jardim da Manhã 2, tenta se equilibrar.

Alice também vai tentar uma oportunidade.
Alice também vai tentar uma oportunidade.

Ela está ansiosa esperando.
Ela está ansiosa esperando.

Maria diz: – Você está linda!

e Alice responde – E você arrasou!
Maria diz: – Você está linda!
e Alice responde – E você arrasou!

Elas fingem não ouvir os gracejos.
Elas fingem não ouvir os gracejos.

Roberta se atrasou ajudando na reforma…
Roberta se atrasou ajudando na reforma…

…mas em pouco tempo fica maravilhosa.
…mas em pouco tempo fica maravilhosa.

- Agora só falta pegar Elisa.
- Agora só falta pegar Elisa.

Algumas meninas não acreditam no sucesso delas…
Algumas meninas não acreditam no sucesso delas…

…mas elas seguem em frente.
…mas elas seguem em frente.

Agressão em dobro

A dona-de-casa Paula*, 30 anos, prestou queixa na Delegacia da Mulher contra Otávio*, 28, com quem vive há 2 anos. O casal tem uma filha de 10 meses e, mesmo grávida do segundo filho, Paula foi espancada pelo companheiro.

“A gente está junto há dois anos. Eu tinha me separado do meu primeiro marido, e fui buscar conforto na Igreja Universal do Reino de Deus, lá em Del Castilho. Eu entrei para o grupo jovem, ele também era de lá, a gente se entrosou e em pouco tempo começou a namorar. Com seis meses de namoro, fomos morar juntos.

Ele nunca tinha sido agressivo comigo, tudo era maravilhoso. Ele não bebe, não fuma, não tem mulher na rua. Mas ele não suporta os problemas da vida, aí desconta tudo em mim, perde a cabeça. Mas eu acho que tudo tem limite, não é? Seria melhor que ele tivesse feito que nem o meu ex-marido, que um dia, sem discutir nem nada simplesmente pegou as coisas dele e foi embora.

Quando a nossa relação tinha um ano e três meses, eu engravidei da Joana*. Eu trabalhava há 11 anos na Secretaria de Fazenda do Estado, mas não tinha carteira assinada, era contratada pela Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Quando souberam que eu estava grávida, me mandaram embora. Eu cheguei a procurar a subsecretária, mas ela não pôde fazer nada. Foram 11 anos jogados fora, sem férias, sem contrato, sem carteira, sem direito a nada.

Foi aí que ele começou a ficar cada vez mais agressivo. Grávida e desempregada, eu não tinha como ajudar nas contas de casa. As nossas brigas sempre começam quando ele percebe que o dinheiro é pouco para as contas que temos que pagar, é sempre o mesmo motivo. Ele vira um monstro. Já me bateu cinco vezes, me deu socos e eu não consigo reagir, porque ele é muito mais forte do que eu. Da outra vez eu fiquei com um hematoma muito maior. Cheguei a chamar a polícia mas não adiantou, porque afinal de contas ele é o pai da minha filha e eu também não quero prejudicá-lo nem colocá-lo na cadeia, nada disso. Só quero que ele não me bata mais.

Para você ter uma idéia do quanto ele é maluco, quando eu estava na sala de parto sentindo as contrações do nascimento da Joana, ele virou para mim e disse: “Tomara que doa bastante, que você sinta muita dor”. E depois saiu. Eu fiquei de resguardo sozinha, tive depressão pós-parto e síndrome do pânico. Ele não fez nada e naquela época eu não contava nada. Hoje meu pai sabe, e me ajuda. Minha tia me levou ao psiquiatra, lá no Instituto Pinel, em Botafogo. A moça falou que eu precisava de um psicólogo, mas eu não tenho como pagar.

Eu já cheguei a ligar para o trabalho dele para pedir ajuda, mas o chefe dele me disse que se o Otávio me bate ele não tem nada com isso. Ele saiu da igreja, nunca mais foi. Para eu ter chegado até aqui é porque eu não agüento mais mesmo, eu tenho muita vergonha, de tudo. Eu quero arranjar um emprego, quero me separar dele. (chora)

Estou no quarto mês de gravidez, e hoje ele me bateu, pelo mesmo motivo: as contas para pagar. Na semana passada ele se atrasou no trabalho, chegou tarde e, como punição, o chefe dele mandou que ele ficasse em casa durante toda a semana, e isso quer dizer que ele não vai receber um tostão, perdeu toda essa semana de salário.

O problema do Otávio é que ele é grosseiro, estúpido por natureza. Eu quero um emprego, quero me separar dele porque não nasci para ficar apanhando. Mas não quero prejudicá-lo. A Joana tem só 10 meses, é apaixonada pelo pai e ele também é louco por ela. Gostaria que ele mudasse, mas não sou mais apaixonada por ele. Ninguém consegue gostar de um homem que te bate”.

*Para garantir o anonimato da denunciante, os nomes de todos os personagens deste caso são fictícios.

Se você se encontra em uma situação de violência, estes são os locais onde pode pedir ajuda:

Delegacias de Mulheres

DEAM Legal Centro
Rua Visconde do Rio Branco, 12
Tels.: 3399-3370/ 3371/ 3372/ 3374/ 3376.

DEAM Legal Belford Roxo
Av. Retiro da Imprensa, 800
Tels.: 3399-3530/ 3980/ 3982.

DEAM Caxias
Rua Tenente José Dias, 344, Centro
Tels.: 3399-3710/ 3711/ 2671-7757.

DEAM Nova Iguaçu
Rua Joaquim Sepa, 180, Marco 2
Tel.: 3399-3720/ 3718/ 2667-4121.

DEAM São Gonçalo
Av. Dezoito do Forte, 578, Mutuá
Tels.: 3399-3730/ 3733.

Um filho e nenhum teto

jovens_maes_03_tratA cena é mais do que comum nas ruas do Rio de Janeiro: jovens vendendo doces ou fazendo malabarismos em sinais de trânsito, pedindo esmola, cheirando cola, cometendo pequenos furtos. Entre eles, adolescentes grávidas, com bebês de colo ou crianças pequenas. Fundada em 1989 com o objetivo de intervir neste quadro de exclusão, a ONG Excola criou, dois anos depois, o projeto Jovens Mães. O programa é voltado para mulheres de 15 a 23 anos que tenham filhos, vivam em situação de risco pessoal e/ou social, e que transformem as vias públicas cariocas em moradia ou local de trabalho.

A ex-menina de rua Joelma da Silva de Andrade, 19 anos, conheceu o projeto em 2001, através de uma prima, depois de toda uma vida de abandono. Ela fugiu de casa aos 7 anos porque queria conseguir dinheiro para comprar roupas e doces. Aos 11, foi para um abrigo de meninas, onde morou até os 13. Voltou para casa, mas o relacionamento com a mãe era insuportável. “Ela brigava sempre comigo porque eu era muito levada e um dia me deu uma facada na mão. Fugi de casa e parei de falar com ela”, conta.

Joelma, jovem mãe que virou monitora
Joelma, jovem mãe que virou monitora

Joelma morou na rua por mais um ano, antes de ir para um abrigo novamente. Aos 16 anos, grávida e sem o apoio do pai da criança, mudou-se para uma casa de assistência para gestantes. “Lá era muito ruim. Depois de oito meses eu saí e voltei para a casa da minha mãe”, diz. Quando sua filha completou um ano, a jovem saiu de casa pela terceira vez. Mas a vida deu uma guinada: Joelma conheceu o atual namorado e ingressou no Jovens Mães.

Desde 2001 ela mora com o rapaz e, neste meio tempo, se empenhou no projeto. Hoje ela atua como monitora e locutora da Rádio Madame Satã, no andar de cima da ONG. “Faço um programa para mulheres sobre Doenças Sexualmente Transmissíveis todos os dias, das três às quatro da tarde. Adoro trabalhar aqui”, conta, sorrindo.

Para Joelma, o Jovens Mães foi um apoio fundamental em uma das épocas mais difíceis e delicadas da vida: quando estava sozinha com a filha nos braços, sem saber como cuidar de uma criança, sem emprego e sem esperanças. “O que mais me chamou a atenção quando entrei aqui foram os cursos, a bolsa que me dão para ajudar a cuidar da minha filha de 2 anos e o atendimento médico”.

Ajuda sem mimos

Celma e Joelma (E):Rádio Madame Satã
Celma e Joelma (E):Rádio Madame Satã

Entre 1994 e 1999 o projeto foi interrompido por falta de patrocínio. Sob a coordenação da psicóloga Luciene Naiff, atualmente o Jovens Mães presta assistência a um grupo de 20 mulheres por ano. Durante os primeiros seis meses, as integrantes freqüentam o programa uma vez por semana para participar da Oficina da Cidadania – palestras que abordam temas como mercado de trabalho, direitos femininos, importância da documentação e da auto-estima, saúde e violência contra a mulher.

No segundo semestre, além da oficina, as jovens freqüentam aulas profissionalizantes de cabeleireiro e manicure, duas vezes por semana. No final dos cursos, recebem um kit com produtos específicos da área de atuação escolhida para poder trabalhar.

“Eu já aprendi muitas coisas. Participo do curso de cabeleireira e acho que depois daqui não volto mais para rua”, diz Taciane Cristina Oliveira Lima, 16, que cria o filho de um 1 e oito meses com a ajuda da mãe.

Taciane: aprendendo um ofício
Taciane: aprendendo um ofício

Para Luciene, o curso profissionalizante é um elemento fundamental do projeto, já que a maioria das mulheres que participa do Jovens Mães não vive integralmente na rua, mas a utiliza como meio de sobrevivência – geralmente vendendo balas e doces no Centro e na Zona Sul da cidade. Algumas já chegaram a passar pelo sistema penal, geralmente devido a pequenos furtos ou uso de drogas. “Elas precisam de uma fonte de renda para adquirir autonomia e independência. Temos relatos de que três meninas do grupo passado se tornaram cabeleireiras e trabalham em um salão de beleza, o que representa uma nova vida para elas”, conta Luciene.

O projeto é uma verdadeira mãe: a Excola também oferece apoio nutricional às jovens. Elas recebem R$ 70 em dinheiro e precisam prestar contas com notas fiscais para comprovar que o valor foi integralmente gasto com alimentação. As meninas têm ainda a ajuda de um especialista em economia doméstica, que as orienta nas compras. No caso da assistência médica, se o posto de saúde não distribuir os remédios indicados a cada integrante, o projeto se responsabiliza pela compra e distribuição dos medicamentos. E, para aquelas que freqüentam a escola, o programa também fornece o kit educativo, com caderno, caneta e outros materiais. “Isto é uma forma de incentivar o estudo, já que é muito melhor ir à escola com tudo bonitinho”, diz a psicóloga.

Alessandra da Silva, 18, está no projeto há quatro meses e tem duas filhas, uma de 2 anos e outra de dois meses. “Aqui é muito bom porque eles nos tratam bem, recebemos lanches e ainda tem uma mulher para cuidar dos nossos filhos quando estamos nas palestras ou nos cursos”, simplifica.

Ensinando a pescar

Mães precoces ainda não perderam seu lado criança
Mães precoces ainda não perderam seu lado criança

O grande desafio dos organizadores do projeto é não deixar que ele se torne assistencialista. A idéia é fazer com que as integrantes possam ter uma vida digna por si próprias quando saírem do programa. Segundo a psicóloga, no início do projeto uma pediatra ia até o Excola dar palestras semanalmente. Por comodidade, as adolescentes acabavam consultando as crianças e a si próprias com a pediatra, ao invés de procurarem um posto de saúde. “Isso criava um vício. Agora as visitas da pediatra são mais espaçadas, exatamente para elas se acostumarem a ir ao posto médico, sozinhas”, explica Luciene.

A psicóloga admite que, em certos momentos, é necessária uma dose extra de controle com as adolescentes para atingir os objetivos do programa: “Às vezes elas esquecem o absorvente íntimo de propósito, para que o projeto compre para elas. Mas elas podem pedir, epsernear até, que eu não permito a compra. Elas recebem uma quantia de dinheiro suficiente e precisam aprender a organizar os gastos. Lá fora ninguém vai fazer nada por elas”.

Além da assistência física, financeira e social, o Jovens Mães também trabalha o lado emocional das integrantes do projeto, meninas que passaram por famílias desestruturadas e inúmeras formas de maus tratos. “Muitas vezes a violência presente na relação das mulheres com os pais dos filhos ou com a própria família é refletida na relação mãe-filho, e este é um dos aspectos que nós trabalhamos”, esclarece a coordenadora do projeto.

No meio do caos, respeito e muita troca
No meio do caos, respeito e muita troca

Na visão de Luciene, o resultado positivo deste trabalho só é possível porque existe respeito tanto das integrantes quanto das organizadoras do projeto. “Muitas pessoas que visitam o programa acham isso um verdadeiro caos, mas não é. Não adianta querer impor uma realidade. Tudo se baseia na dinâmica da troca, e estas meninas vêm com uma experiência de vida muito grande e forte que nós não podemos ignorar. O caos faz parte da vivência delas”, justifica.

O projeto está com inscrições abertas até setembro para formar mais uma turma, onde 20 novas jovens mães serão assistidas. A Excola também aceita doações de qualquer espécie. Informações através dos telefones: (21) 2224-1414 ou 2517-3315, ou na sede do projeto (Rua da Lapa, 181, Lapa, Rio de Janeiro).